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Preocupação cuidadosa primária e secundária

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Texto escrito por Fábio Belo, Professor adjunto de Psicanálise, da UFMG*

 Winnicott tem um conceito bastante importante: preocupação materna primária. Através dele, o autor nos diz de um estado especial que as mães ocupam quando estão grávidas e nos primeiros meses de vida do bebê. Trata-se de uma preocupação no sentido de uma identificação com seu bebê de tal forma a estar presente de forma estável e suficientemente boa para aquilo que a criança precisa e demanda espontaneamente para continuar a ser, sem muitas interrupções e invasões.

Tenho criticado recentemente o caráter ideológico desse conceito. A meu ver, ele acaba por atrelar muito fortemente a condição física e também de gênero à noção de cuidado. Como o próprio nome do conceito indica, trata-se de algo materno. Ora, o cuidado, no entanto, é uma capacidade psíquica que devemos pressupor em todos os humanos, independente de sua condição anatômica e de gênero. Acredito ser mais winnicottiano, inclusive, acolher gestos cuidadosos como parte do que alguns de nós endereçam espontaneamente para os outros.

Por preocupação cuidadosa primária entendo o cuidado que um sujeito tem para com um bebê. Tanto faz se é homem ou mulher, pai ou mãe, biológicos ou não. Trata-se do desejo suficientemente estável de acolher o bebê também como sujeito, mesmo que seu comportamento nada diga da presença efetiva de um eu organizado. Essa pressuposição identificatória – ver alguém completo e complexo já desde os primeiros dias (e até no útero) – é a base da preocupação cuidadosa. Trata-se ainda de estar atento ao gesto espontâneo da criança no sentido de constituir uma temporalidade adequada ao cuidado. Não chegar nem muito cedo, nem muito tarde. A preocupação não é ansiosa, apenas atenta de forma quase permanente. Nesse sentido, é ato de cuidado saber esperar que a criança demande para só então agir para atender a esse chamado, de forma disponível e estável.

A partir dessa base, o adulto pode se distanciar aos poucos e também ir apresentando novos elementos à criança de tal forma a ir dando a ela condições de distinguir entre seus desejos e os limites que o adulto e o mundo impõem a eles. Aqui entra em jogo a preocupação cuidadosa secundária, presente ao longo de toda a vida. Trata-se do jogo que fazemos uns com os outros de estar disponível, momentaneamente, para escutar e fornecer espaços potenciais para que o desejo de alguém possa se apresentar e se realizar em alguma medida.

No campo da educação, a criança irá exigir bastante dessa preocupação secundária, pois ela deseja atenção e espaço para manifestar-se e ser escutada de forma singular. O sistema educacional, no entanto, como deve fazer a criança se adequar muitas vezes, será alvo de grandes ataques da criança. É preciso escutar os muitos tipos de ataque que a criança endereça aos adultos em situação pedagógica. Alguns desses ataques podem significar que o adulto perdeu algo, deixou de ver algo importante que a criança está a dizer e que ele deve voltar atrás e tentar escutar melhor.

A preocupação cuidadosa secundária cria, portanto, um espaço transicional no qual todos os envolvidos aprendem a jogar com paradoxos importantes, como aquele que diz que podemos estar juntos mesmo um tanto isolados uns dos outros. Podemos realizar muitos dos nossos desejos, mesmo que sempre abrindo mão de partes importantes deles. Podemos auxiliar o outro a enunciar melhor o que deseja, dentro da possibilidade de realização do mundo que ocupa.

A educação é a arte de operar com essa preocupação cuidadosa secundária. Saber o momento de fazer o mundo ceder mais espaços e também o momento de fazer o sujeito cooperar e encontrar uma forma mais possível de se realizar no mundo em que ele encontra. Principalmente: a educação é a fabricação permanente de um espaço potencial, um espaço que continue sempre a se engendrar, no qual tal jogo possa continuar a ocorrer sem exigir renúncia e submissão em demasia de nenhum de seus participantes.

 Belo Horizonte, 30/05/2015

fabiobeloTEXTO ESCRITO PELO COLABORADOR:

Fábio Belo, psicólogo e psicanalista, Mestre em Estudos Psicanalíticos (Fafich/UFMG), Doutor em Literatura (Fale/UFMG) e atualmente é professor adjunto de psicanálise no departamento de Psicologia/UFMG. 

Contatos: www.fabiobelo.com.br / fabiobelo76@gmail.com