Preocupação cuidadosa primária e secundária

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Texto escrito por Fábio Belo, Professor adjunto de Psicanálise, da UFMG*

 Winnicott tem um conceito bastante importante: preocupação materna primária. Através dele, o autor nos diz de um estado especial que as mães ocupam quando estão grávidas e nos primeiros meses de vida do bebê. Trata-se de uma preocupação no sentido de uma identificação com seu bebê de tal forma a estar presente de forma estável e suficientemente boa para aquilo que a criança precisa e demanda espontaneamente para continuar a ser, sem muitas interrupções e invasões.

Tenho criticado recentemente o caráter ideológico desse conceito. A meu ver, ele acaba por atrelar muito fortemente a condição física e também de gênero à noção de cuidado. Como o próprio nome do conceito indica, trata-se de algo materno. Ora, o cuidado, no entanto, é uma capacidade psíquica que devemos pressupor em todos os humanos, independente de sua condição anatômica e de gênero. Acredito ser mais winnicottiano, inclusive, acolher gestos cuidadosos como parte do que alguns de nós endereçam espontaneamente para os outros.

Por preocupação cuidadosa primária entendo o cuidado que um sujeito tem para com um bebê. Tanto faz se é homem ou mulher, pai ou mãe, biológicos ou não. Trata-se do desejo suficientemente estável de acolher o bebê também como sujeito, mesmo que seu comportamento nada diga da presença efetiva de um eu organizado. Essa pressuposição identificatória – ver alguém completo e complexo já desde os primeiros dias (e até no útero) – é a base da preocupação cuidadosa. Trata-se ainda de estar atento ao gesto espontâneo da criança no sentido de constituir uma temporalidade adequada ao cuidado. Não chegar nem muito cedo, nem muito tarde. A preocupação não é ansiosa, apenas atenta de forma quase permanente. Nesse sentido, é ato de cuidado saber esperar que a criança demande para só então agir para atender a esse chamado, de forma disponível e estável.

A partir dessa base, o adulto pode se distanciar aos poucos e também ir apresentando novos elementos à criança de tal forma a ir dando a ela condições de distinguir entre seus desejos e os limites que o adulto e o mundo impõem a eles. Aqui entra em jogo a preocupação cuidadosa secundária, presente ao longo de toda a vida. Trata-se do jogo que fazemos uns com os outros de estar disponível, momentaneamente, para escutar e fornecer espaços potenciais para que o desejo de alguém possa se apresentar e se realizar em alguma medida.

No campo da educação, a criança irá exigir bastante dessa preocupação secundária, pois ela deseja atenção e espaço para manifestar-se e ser escutada de forma singular. O sistema educacional, no entanto, como deve fazer a criança se adequar muitas vezes, será alvo de grandes ataques da criança. É preciso escutar os muitos tipos de ataque que a criança endereça aos adultos em situação pedagógica. Alguns desses ataques podem significar que o adulto perdeu algo, deixou de ver algo importante que a criança está a dizer e que ele deve voltar atrás e tentar escutar melhor.

A preocupação cuidadosa secundária cria, portanto, um espaço transicional no qual todos os envolvidos aprendem a jogar com paradoxos importantes, como aquele que diz que podemos estar juntos mesmo um tanto isolados uns dos outros. Podemos realizar muitos dos nossos desejos, mesmo que sempre abrindo mão de partes importantes deles. Podemos auxiliar o outro a enunciar melhor o que deseja, dentro da possibilidade de realização do mundo que ocupa.

A educação é a arte de operar com essa preocupação cuidadosa secundária. Saber o momento de fazer o mundo ceder mais espaços e também o momento de fazer o sujeito cooperar e encontrar uma forma mais possível de se realizar no mundo em que ele encontra. Principalmente: a educação é a fabricação permanente de um espaço potencial, um espaço que continue sempre a se engendrar, no qual tal jogo possa continuar a ocorrer sem exigir renúncia e submissão em demasia de nenhum de seus participantes.

 Belo Horizonte, 30/05/2015

fabiobeloTEXTO ESCRITO PELO COLABORADOR:

Fábio Belo, psicólogo e psicanalista, Mestre em Estudos Psicanalíticos (Fafich/UFMG), Doutor em Literatura (Fale/UFMG) e atualmente é professor adjunto de psicanálise no departamento de Psicologia/UFMG. 

Contatos: www.fabiobelo.com.br / fabiobelo76@gmail.com

Comunicação e motivação – Post 2: como motivar a criança

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“Somos todos geniais. Mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará sua vida inteira acreditando ser estúpido”. (Albert Einstein)

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”.  (Freud)

No post anterior, comentei com vocês como às vezes nós esperamos que a situação mude, mas não mudamos nossas atitudes perante a situação. Assim, insistimos em agir de uma determinada forma que achamos que vai dar resultado, mesmo que a realidade esteja nos mostrando que nada está mudando.

Percebi isso em muitos atendimentos nos quais observava algumas atitudes adultas que não promoviam nenhuma motivação para a criança mudar seu comportamento. Taí a nossa palavra-chave.

Alguns pais relatam um determinado comportamento inadequado e repetitivo da criança – birras, desobediência, agressividade – e tentam corrigi-los com uma constante repreensão, críticas e punição. Não foram poucas as vezes em que me deparei com adultos que já não elogiavam os filhos e nem mesmo descrevia nenhum de seus aspectos positivos. Tudo que eu ouvia eram palavras negativas, às vezes com raiva, cansaço, irritação – o que é totalmente compreensível, porque, como eu disse no post anterior, a gente sabe que se trata de um erro tentando acertar. Isso acontece com todos nós.

Mas para compreendermos como as palavras negativas influenciam na atitude da criança, tornando-a desmotivada a agir da forma adequada, e como uma comunicação positiva serve de estímulo aos comportamentos desejados, costumo fazer uma analogia com um ambiente de trabalho adulto.

Suponha que seu patrão pediu-lhe para realizar uma nova tarefa, e ensinou-lhe como fazer, passo a passo. Na primeira vez você fez rápido, de forma desleixada e equivocada, e apresentou a tarefa realizada a ele. Ele criticou o seu comportamento e o trabalho feito, apontando todos os defeitos que carregava e afirmando que você era incapaz. Então pediu, de forma ríspida, que fizesse novamente e corretamente, ou receberia uma punição. Você, desta vez, com medo de ser criticado e punido, fez o trabalho com mais cuidado e tentando prestar atenção aos pontos importantes. Apresentou a tarefa ao seu patrão, que criticou os erros que ainda haviam sido cometidos e, sem observar o esforço que você dedicou, aplicou-lhe a punição e ainda lhe deu mais trabalhos, completando que duvidava que você desse conta. Você agora se esforça e tenta fazer da melhor forma possível, mas o patrão já espera que você vá apresentar errado, e a todo momento critica-o e  duvida da sua capacidade, dizendo que você nunca faz nada corretamente e não consegue cumprir ordens. Novamente, ao entregar a tarefa ao patrão, ele só enxerga os defeitos, criticando-os e punindo-o, e nem percebe a sua dedicação e os acertos que você conseguiu obter naquela tarefa. Em determinado momento, aquele ciclo te deixa cansado, e você, sabendo que o patrão só vai criticá-lo e nunca vai enxergar seus pontos positivos, desiste de fazer a tarefa bem-feita e volta a fazer de forma desleixada – afinal, é isso que ele espera mesmo de você (e também porque você já está tão irritado que passou a “pirraçar” o seu patrão).

Suponhamos agora essa mesma situação, diante de um patrão com outra atitude. Ao receber o seu primeiro trabalho realizado de forma desleixada, ele chama a sua atenção para os pontos negativos mas ressalta os positivos, dizendo que sabe que você é capaz de muito mais do que aquilo. Assim, pede-lhe para fazer novamente o trabalho, se oferecendo para sanar qualquer dúvida. Você realiza novamente, um pouco contrariado, mas tentando não cometer os mesmos erros para não desapontar o patrão. Ao apresentar novamente a tarefa, seu patrão elogia-o, dizendo como você melhorou da última vez para agora, e que, apesar de ainda ter alguns erros no trabalho, gostou de saber que você se esforçou e que mostrou que pode ser capaz. Ele, depois de ressaltar seus aspectos positivos, lhe aponta onde ainda existem erros e como você pode corrigi-los, usando suas habilidades. Você gostou de receber aqueles elogios e conquistar a confiança do patrão, então agora procura seguir suas coordenadas e realizar a tarefa conforme foi pedido. Ao apresentar novamente, o patrão elogia-o pelo cumprimento e pela constante evolução, parabeniza-o pelo esforço e pela tarefa bem cumprida, e ao enxergar um pequeno engano irrelevante cometido, ignora-o para não desmotivá-lo. Porém, ao pedir-lhe a próxima tarefa, o patrão fica atento se esse engano está sendo cometido novamente, enquanto você está desenvolvendo o trabalho; e ao perceber que você vai se equivocar desta vez, orienta-o sobre qual o caminho melhor a seguir naquele momento. Você sente que está agradando ao patrão, que ele está prestando atenção em você e te dá valor; dessa vez, faz seu trabalho com bastante atenção e cuidado, da forma que ele lhe orientou. Ao apresentar ao patrão, este novamente o elogia e ainda lhe dá aquele dia de folga que você estava querendo, pois você conseguiu adiantar seus trabalhos e se superou. A partir desse dia, você ficou muito mais motivado a trabalhar e cumprir as tarefas, mostrando todas as suas habilidades.

Claro que não estou “comparando” uma relação de trabalho a uma relação parental; foi apenas uma analogia grosseira para percebermos que certos comportamentos são próprios do ser humano, adulto ou criança, e não exclusivamente do universo infantil. Assim, por exemplo, um elogio (SINCERO, ESPONTÂNEO E VERDADEIRO!) pode ser força motivadora de qualquer pessoa. E às vezes, se pararmos pra refletir que aquilo poderia ser a minha realidade, talvez possamos compreender melhor como a criança se sente em uma situação semelhante.

Invistamos, pois, em observar mais os aspectos positivos de um comportamento e ressaltá-los. E, mesmo que os aspectos negativos ou inadequados estejam muitos fortes e resistentes, tomemos o cuidado de não deixarmos que isso impeça-nos de enxergar a totalidade da realidade daquela criança. (Que fique bem claro: isso não é viver como “Poliana” nem “ver o mundo cor-de-rosa”, não. Simplesmente é importante que a correção venha acompanhada de reflexão e de motivação).

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(Créditos das fotos: retirada do Google Imagens)

 

Comunicação e motivação – Post 1: Sobre errar, aprender e mudar

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“É insanidade fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes”. (Albert Einstein)

“Alguém que nunca cometeu erros, nunca tratou de fazer algo novo”. (Albert Einstein)

Imaginem vocês que eu tenho em mãos uma garrafa de água, fechada com uma tampa. Eu quero abrir essa garrafa, mas não sei como funciona seu mecanismo de abertura. Então eu tento girar a tampa no sentido contrário à sua abertura, fechando-a ainda mais. Estou vendo que ela não está abrindo, mas eu continuo acreditando que é desse jeito que eu vou abrir a garrafa. Assim, junto todo meu esforço e continuo girando a tampa nesse sentido. E passam-se horas nessa tentativa, mas a garrafa não abre.

Qual seria a atitude mais razoável que eu teria de tomar, diante dessa evidência que se me mostra?

Bom, imagino que vocês tenham respondido “tentar outra forma de abrir a garrafa, já que você percebeu que assim você não conseguirá”.

Pois é. Às vezes passamos muito tempo insistindo numa tentativa de fazer as coisas mudarem, mas agindo sempre da mesma forma.

Vejam bem: reconhecer que era preciso mudar de atitude não significa que eu não estivesse tentando abrir a garrafa na melhor das intenções, com esforço e dedicação. Eu estava colocando toda a minha energia e estava fazendo o melhor que eu podia, naquilo que eu achava que era correto. Assim como tantos pais ou educadores fazem com suas crianças.

Mas em determinado momento, preciso humildemente perceber que, se não está funcionando daquele jeito, é porque o jeito que estou tentando pode estar equivocado.

Falamos muito sobre como as crianças aprendem com os erros, mas é bom lembrar que os erros são e serão cometidos por todos nós também, adultos. Inevitavelmente. E é através dos erros que vamos tentando abrir novos caminhos na educação.

Quantas vezes não ouvi pais lamentando que “sempre coloca a criança de castigo, mas ela não melhora”, “sempre faz tudo o que ela quer, mas ela não lhe obedece”, “sempre fala pra ela que é uma malcriada, mas ela não ouve”. Vamos refletir: se depois de um longo tempo de tentativa de mudança do comportamento da criança através de determinadas atitudes, percebemos que a criança não muda, ou até piora, é preciso parar e verificar se não estamos tentando abrir a garrafa no sentido contrário. E aí, tentar uma nova forma de abri-la.

Nem sempre a garrafa pode abrir apenas girando a tampa para o outro lado – isso também pode não dar certo. É preciso entender que, às vezes, tentarei várias formas de abrir aquele recipiente, mas no final descobrirei que aquela tampa nem abre girando, ou que a tampa está do outro lado, ou que a garrafa possui abertura vertical. Algumas, só com abridor; outras, só saca-rolhas. Para isso, é preciso estarmos bem atentos, observar bastante “nossa garrafa” e prestar bastante atenção no que é que a situação está me solicitando.

Reconhecer que a realidade está nos pedindo outra coisa é um primeiro passo para a mudança (da nossa atitude e da realidade que eu quero mudar). A partir do momento em que percebemos que nossa ação está caminhando num sentido em que nada muda, é hora de refletirmos, observarmos e tentar girar a tampa da garrafa em outras direções.

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No próximo post, dando continuidade a este assunto, vou comentar situações difíceis em que às vezes, insistimos em agir da mesma maneira, e quais resultados podem decorrer disto.

(Créditos das imagens: Banco de imagens do Google, e https://365nuncas.wordpress.com)

Respeite minha dor! Falando de morte com a criança

“Salgueiro chorão com lágrimas escorrendo,
Por que você chora e fica gemendo?
Será porque ele lhe deixou um dia?
Será porque ficar aqui não mais podia?
Em seus galhos ele se balançava,
E ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava,
Em sua sombra abrigo ele encontrou,
Imagina que seu sorriso jamais se acabou.
Salgueiro chorão, pare de chorar,
Há algo que poderá lhe consolar, 
Acha que a morte para sempre os separou?
Mas em seu coração pra sempre ficou….”

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No filme “Meu primeiro amor”, a personagem mirim Vada recita na sua aula de literatura o poema “Salgueiro Chorão” após ter de enfrentar a morte do seu melhor amigo, Thomas.

Parece clichê repetir que a morte é parte da vida, mas uma notícia de morte inevitavelmente nos toca, porque “somos parte integrante da humanidade”, como escreveu o poeta inglês John Donne. Portanto, quando se trata de uma pessoa querida, amada, não é mesmo fácil para nenhum de nós. Enfrentar o luto é um processo difícil em todas as idades de um ser humano, mas pode ser ainda mais difícil para uma criança, que sente e compreende subjetivamente a duração do tempo de uma forma diferente da do adulto.

Abordar a morte com a criança ainda deixa muita gente desconcertada, sem saber como fazê-lo. Muitos recorrem a eufemismos como “dormiu para sempre”, “virou estrelinha”, “viajou pra sempre”, não explicando na realidade o que aconteceu. Isso às vezes mais confunde do que ajuda – principalmente para as crianças mais novas, antes dos 6 anos, por já possuírem uma dificuldade em compreender a questão da irreversibilidade da morte. Desta forma, essas abordagens podem dar a algumas crianças a impressão de que o ente querido “desapareceu”, “evaporou”, “foi embora e não voltou”, gerando fantasias em sua mente, como de resgatá-lo ou ir ao seu encontro. No futuro, pode até dificultá-las a lidar com o luto de uma maneira equilibrada, pois em momentos oportunos não lhe foi apresentada a morte de uma forma esclarecedora.

Ao enfrentar o luto, uma criança pequena, que decerto ainda não sabe direito nomear seus sentimentos, pode reprimir suas emoções ou até mesmo expressá-las através de outros comportamentos ou sintomas (mecanismos de defesa), como a agressividade, a hostilidade, a negação, o isolamento social e às vezes até o sentimento de culpa. A fim de que essa perda vá sendo bem elaborada na estrutura psíquica das crianças é que se torna importante falar e ouvir falar da morte abertamente com elas, assim como mostrar que seu sofrimento é digno de respeito.

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O leãozinho Simba se viu desamparado e culpado após a morte do seu pai, Mustafa, no filme infantil “O Rei Leão”.

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A personagem Vada primeiramente teve uma reação de negação ao saber da morte do seu amigo Thomas, no filme “Meu Primeiro Amor”.

No meu último trabalho com atendimento em saúde mental infantil, num serviço público, eu cheguei em um momento bastante difícil. O psicólogo infantil que trabalhava lá anteriormente havia acabado de falecer em um acidente. Havíamos mais de cem pacientes, crianças e adolescentes, e claro que foi um triste momento de luto a ser vivido, já que a grande maioria possuía um vínculo longo e forte com o profissional. Após darmos a notícia aos pais (que também receberam com muito pesar e tristeza), recomendamos a todos eles que já preparassem e falassem a verdade com as crianças em casa, sem mentiras nem omissões, sobre a morte do então psicólogo delas. E foi preciso realmente muito cuidado e respeito para abordá-los sobre isso, principalmente por se tratar de crianças e jovens que já estavam no curso de um tratamento de um sofrimento psíquico – muitas inclusive que já vinham enfrentando outros processos de luto. 

É importante acolher todas as emoções e sentimentos da criança, e fazê-la perceber que é natural que sinta dor, tristeza, saudade, às vezes até mesmo raiva, naquele momento. Muitas crianças não conseguem falar sobre o que se passa com elas – mas não falar não significa que não estão sentindo. Muitas delas não conseguem nem mesmo chorar por um tempo. Fundamental ouvir o que as crianças têm a dizer, até mesmo encorajá-las a fazerem-no – ou dizer a elas que podem tentar se expressar através de desenhos. Deixem-nas brincar também, pois através da simbolização alçada na fantasia, algumas ansiedades podem ser aliviadas. Também não esconda da criança os seus próprios sentimentos e a sua própria dor. Isso tudo pode ir ajudando na elaboração do luto infantil.

A criança, como qualquer um de nós, pode enfrentar no curso de sua infância mortes trágicas ou mortes “esperadas”, como de uma pessoa em doença terminal; pode ser a morte de um bichinho de estimação, de um parente ou familiar, de um amigo ou amiga, do vovô ou da vovó, de um professor ou professora, e na pior das hipóteses, de um dos seus genitores ou principal cuidador/tutor – a figura em quem, geralmente, naquele momento, está se baseando como modelo para construir sua identidade e constituir sua personalidade. Em todos os casos, a criança precisa sentir que não ficou sozinha nesse momento de perda e ser apoiada desde o início, de preferência por alguém de confiança e de seu vínculo, e que possa lhe devotar afeto, carinho e cuidado durante o tempo necessário. É bom também que a pessoa que lhe dará a difícil notícia da morte seja essa mesma pessoa que estará a lhe acompanhar no processo do luto.

Muitos especialistas defendem a ideia de que seja facultado à criança (principalmente acima dos três anos) a escolha de participar dos ritos culturais de despedida (como funerais e enterros). Para eles, é bom explicar à criança do que se trata aquele momento e perguntar se ela deseja participar, mas nunca impor-lhe a vontade (nem de ir ou de não ir). Assim como elas participariam de outros ritos marcadores do tempo na cultura, como casamentos e aniversários, a participação nos rituais fúnebres seria também uma forma de ter-lhes preservado e respeitado o seu direito de se “despedir” simbolicamente da pessoa que amam, e assim fazendo da morte um evento menos traumático. Obviamente que, como tudo tem sua exceção, funerais derivados de grandes tragédias talvez não sejam realmente adequados para que crianças muito pequenas presenciem, dado que, em muitas vezes, muitos dos próprios adultos em luto costumam mostrar grande desespero e revolta nessas situações. Desta forma, no final o que conta é que o responsável pela criança esteja sensível a perceber a nuance da situação.

Para irem aprendendo a lidar com o tema do ciclo da vida, as crianças já podem ir sendo educadas através de atividades lúdicas – como explicar a elas sobre a vida das plantinhas e dos animais, fazendo com que elas se envolvam através de um momento de acompanhamento e convivência (a ideia de plantar e cuidar do feijãozinho no algodão, por exemplo). A arte também é sempre uma bela maneira de se tratar temas existenciais como a morte com as crianças, pois a arte ativa a sensibilidade, desperta para os sentidos e transcende o real. Livros, obras, filmes, músicas, teatros, contação de histórias: todos são interlocutores que podem ajudar a abordar o tema de morte até mesmo com bom humor. 

Dicas de alguns livros infantis sobre o tema:

“Começo, meio e fim” (Frei Betto)

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“Menina Nina” (Ziraldo)

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“A montanha encantada dos Gansos Selvagens” (Rubem Alves)

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“Quando os dinossauros morrem” (M. Brown)

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“O círculo do destino” (Raja Mohanty e Sirish Rao)

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“A história de uma folha” (Léo Buscaglia)

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“O pato, a morte e a tulipa” (Wolf Elrbruch)

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Vó Nana (Margaret Wild)

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A Poltrona Vazia (Sandra Saruê e Marcelo Boffa)

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Tempos de Vida (Bryan Mellonie e Robert Ingpen)

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A Velhinha Que Dava Nome às Coisas (Cynthia Rylant)

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A mulher que matou os peixes (Clarice Lispector)

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O guarda-chuva do vovô (Carolina Moreyra)

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Referência de leitura extra pra vocês: Luto na infância e as suas conseqüências no desenvolvimento psicológico. Louzette, F.L. e Gatti, A. L.  2007. 

Momento desabafo: Enquanto eu procurava as imagens pra ilustrar o post, acabei assistindo novamente um pedacinho do filme “Meu Primeiro Amor” (o momento do funeral). Pensem se não morri de chorar aqui novamente, pela enésima vez? rs

Não podemos fugir das frustrações

Ninguém disse que crescer seria fácil. Existir traz muitos conflitos e, queiramos ou não, virão erros e acertos, sucessos e fracassos durante toda a vida. Mas, e na educação? As crianças estão sendo preparadas para “falhar”? De quantas frustrações elas estão sendo privadas para que se garanta a sua plena satisfação?

Alguns papais e mamães relatam muita dúvida de quando devem começar a estabelecer limites à criança, e com que idade devem começar a dizer “não”. Muita confusão é formada a respeito do que se fala sobre a importância da “frustração” para o desenvolvimento psíquico infantil.

lindando com a birra

Ao contrário do que parece, obviamente não estamos falando aqui de deixar um bebê de colo chorar por horas no berço, como apregoam algumas linhas (na minha opinião, questionáveis) por aí. Mas podemos sim, falar de “aprender a lidar com a frustração” desde a fase de bebê e a primeira infância. E não se trata de “impor” frustrações para que eles lidem com elas (seria crueldade, hein?), mas de aprender a lidar com aquelas que muitas vezes a própria natureza impõe ou que aparecem em situações da própria vida – inevitável e invariavelmente -, sem tentar privá-las dos desprazeres o tempo inteiro.

Para entender melhor, voltemos ao recém-nascido, primeiramente. Ao nascer, o bebê vivencia a sua primeira “frustração”, ao sair do conforto do útero materno. É a partir dessa frustração que o bebê aprende a se esforçar para respirar através dos seus pulmões (já que antes não havia esforço, devido à utilização da circulação fetal). As frustrações de fome, de sede, novamente forçam o bebê a tornar-se ativo, a chorar e a “procurar” por alimento. Percebem a importância da “frustração” de cada momento?

Recorrendo agora aqui a uma leitura psicanalítica do desenvolvimento infantil, o recém-nascido ainda não possui a sua estrutura psíquica totalmente formada (pois o que se costuma chamar de “ego”, ou “consciência do eu”, é formado na relação com um “outro”), e a visão de mundo de um bebê ainda é extremamente egocêntrica, então, na visão do bebê, ele e mamãe são “um só”, e a mamãe estará ali para atendê-lo de forma imediata a todo momento que ele requerê-la. E claro que, geralmente, o esforço ideal de toda mãe é para isso mesmo: para que seu bebê não passe fome, frio, sede, sono, não fique doente. Assim, as mães se doam completamente, perdem sono, “padecem no paraíso”, como costumeiramente dizemos. É natural que a mãe queira estar em momento integral disponível para o seu bebê (e, na verdade, é até mesmo ideal que seja assim, principalmente no que diz respeito ao total envolvimento afetivo-emocional com o bebê, ou seja, à completa entrega do amor!). Mas no plano real, sabemos que muitas vezes a satisfação imediata das necessidades do bebê não é exatamente possível em todos os segundos do dia, certo? Afinal de contas, teve uma horinha ali em que o bebê chorou cerca de meio minuto a mais e ficou esperando o seio para mamar, que foi só aquele tempinho que demorou pra que você apenas terminasse de engolir o seu único lanche do dia, aquele que você tinha acabado de começar quando ouviu ele chorar… ;-)

Então, são momentos como esse, nos quais o bebê vai vendo que a mãe não está respondendo de forma imediata (literalmente) às suas frustrações naturais, é que ele vai percebendo também que a mãe não só é um “outro” diferente dele, como também “existe para outros“, para outras coisas do mundo; assim como existem outras coisas externas a ele que também carregam a atenção da mãe (como, num exemplo típico: o trabalho, o cônjuge, outros filhos, outros afazeres). E é preciso que ele vá percebendo isso mesmo, de forma que a percepção de alteridade vai se formando em seu psiquismo.

– Então isso quer dizer que eu posso deixar meu neném chorando, esperando um pouco, que é bom pra ele?

NÃO, genteabsolutamente, eu NÃO disse isso em momento algum. O que quis explicar é que as frustrações impostas naturalmente e inevitavelmente ajudam o pequeno bebê a ir compreendendo a diferenciação de si e do outro, e também a ir lidando com a realidade aos poucos.

Com isso, também, quero mostrar que o “afeto do desprazer” (a frustração) é importante sim ao desenvolvimento do ser humano, tão importante como o “afeto de prazer” (a satisfação)!  Se frustrar faz parte! Faz parte e é necessário! E isso é para o resto do nosso ciclo vital.

Assim, à medida que vai crescendo, durante toda a infância, muitas frustrações “inevitáveis” também vão ocorrer na vida da criança de outras formas, ou seja, situações em que dizer ou sustentar um “não”, em que “impor um limite”, é o mais adequado para seu desenvolvimento. Por exemplo (já não falando mais dos bebês): quando a criança  quis levar o brinquedo que não era dela pra casa, mas não podia; quando quis o chocolate de todo jeito fora do horário, mas não seria bom para sua saúde; quando perdeu no jogo com o coleguinha, e precisou aceitar; quando a professora lhe chamou a atenção por estar conversando na classe, e ela se chateou porque esperava contar com o apoio da mãe para revidar a professora; dentre várias outros momentos. Vocês cederiam a todas essas situações, revertendo-as para que as crianças ficassem satisfeitas? E se elas iniciassem uma birra a cada uma dessas frustrações citadas acima?

Às vezes pode ser muito difícil para alguns pais conseguir sustentar esse “sinto muito, mas temos que aprender a lidar com isso” que a frustrará, mas nessas horas é que entra uma explicação terna (geralmente as crianças a partir dos 2 anos compreendem mais, devido à aquisição da linguagem). Eu costumava dizer na orientação aos pais: Você pode dizer “não” de forma firme e carinhosa ao mesmo tempo, explicando-lhe sempre o motivo do seu limite e, com isso, tentando levá-la a entender que você está dizendo “não” porque a ama e porque é para o bem dela. É importante que esteja claro o motivo e a razão de você estar fazendo aquilo – mas sem ceder. Isso vai ensinando a criança a aceitar melhor as situações frustrantes, e desta forma ela vai gradualmente amadurecendo, pois através de conversa, diálogo, explicações e conversas assertivas com amor, ela pode compreender, ao longo de seu crescimento, que o mundo não funciona para atender às suas vontades o tempo inteiro, e que nem tudo pode ser do jeito que ela quer. Ela não vai deixar de se frustrar, mas vai aprendendo a lidar melhor com isso.

Muitos pais que atendi esperavam que simplesmente a criança “aceitasse calmamente e passivamente” as situações frustrantes (seria um sonho, né) – ficando eles mesmos (pasme!) frustrados diante de uma situação que não lhes saiu conforme esperado. Eu costumava dizer a eles, “Olhem para vocês. Se até nós, adultos, ficamos chateados quando algo não sai como esperávamos, nos frustramos perante um fracasso, um erro, uma falha (e isso é absolutamente normal enquanto não nos destruir), como vamos exigir de uma criança – que teoricamente é mais imatura em termos de desenvolvimento psíquico – que ela não fique chateada em um momento desse? No início da aprendizagem, é claro que elas vão reagir, elas vão rebater, algumas podem fazer ‘birra’, outras podem querer impor sua vontade de qualquer maneira. A única coisa que podemos fazer é ir ensinando-as a lidar com essas situações – por isso é importante não ceder. Pois frustrações acontecerão a vida inteira, e nos chatearão a vida inteira. Se lhe forem sempre satisfeitas, quando forem adultos, como lidarão com as frustrações? Poderão fazer ‘birra’ com a vida?”

Diriam alguns ainda que, se podiam evitar uma situação frustrante, “revertendo-a”, então ela não seria uma “frustração inevitável”. Calma lá. É claro que se pode tentar evitar algumas situações frustrantes, por exemplo, como podemos evitar tirar uma nota ruim numa prova, estudando melhor; mas em determinado momento uma situação de frustração será, sim, inevitável ou até mesmo necessária, e quando ela já aconteceu ou está na hora de acontecer (por necessidade de imposição de limites a um comportamento inadequado, por exemplo), você não está mais evitando-a, você já está privando a criança dessa frustração, cedendo invariavelmente às suas vontades quando não é adequado ou possível. Isso pode ser prejudicial, sim, à criança durante o curso do seu desenvolvimento, pois poderia vir a formar meninos e meninas constantemente insatisfeitos e “birrentos”, muitas vezes incapazes de ver sob o olhar do “outro”, pois não estão deixando que se construa em seu psiquismo a noção de que existem “outro/as” além da sua própria vontade; assim como futuros homens e mulheres em muitos casos egoístas e com dificuldades em compreender e aceitar as realidades e dificuldades da vida adulta, o que poderia vir também a causar um grande sofrimento psíquico neles mesmos.

Não se poder fugir das frustrações, e as crianças precisam ser ensinadas sobre isso. Bebês se frustram, crianças se frustram, jovens se frustram, adultos se frustram. Conseguiremos, conquistaremos, sim; e precisamos estar motivados para vencer. Mas também falharemos, fracassaremos; e precisamos estar preparados para perder. Aquele que está acostumado a ser privado de frustrações e ter seus desejos sempre satisfeitos, ao ter-lhe a primeira dificuldade imposta pela vida – através do fracasso, da falha, do erro, da perda, da decepção -, poderá não enfrentar esse momento com o devido equilíbrio (como poderia o fazer uma outra pessoa que lidou com as frustrações durante seu curso de desenvolvimento), podendo inclusive recorrer a tentativas paliativas de se “privar” de “sentir” a frustração. É preciso entender que viver sem desprazeres é impossível. Em uma sociedade já tão individualista, que cultiva constantemente a busca plena do prazer, e que já tenta evitar as frustrações de todas as formas, proporcionando tantas vezes um “conforto artificial” – através de instituições, políticas, ‘sedativos’, entretenimentos, alienações – ao menos o processo educativo familiar pode tentar contribuir com a formação de cidadãos menos intolerantes às frustrações que a própria existência lhe imporá.

OBS: Sugestão complementar de leitura: Divulgamos ontem na nossa fanpage essa entrevista com o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun, que fala justamente de uma dificuldade contemporânea em educar para a frustração e o erro, já que é preciso compreender que a “satisfação plena” nunca será alcançada e que falhar será inevitável durante o curso da existência. Recomendo. http://www.contioutra.com/ensinem-os-filhos-a-falhar/