Respeite minha dor! Falando de morte com a criança

“Salgueiro chorão com lágrimas escorrendo,
Por que você chora e fica gemendo?
Será porque ele lhe deixou um dia?
Será porque ficar aqui não mais podia?
Em seus galhos ele se balançava,
E ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava,
Em sua sombra abrigo ele encontrou,
Imagina que seu sorriso jamais se acabou.
Salgueiro chorão, pare de chorar,
Há algo que poderá lhe consolar, 
Acha que a morte para sempre os separou?
Mas em seu coração pra sempre ficou….”

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No filme “Meu primeiro amor”, a personagem mirim Vada recita na sua aula de literatura o poema “Salgueiro Chorão” após ter de enfrentar a morte do seu melhor amigo, Thomas.

Parece clichê repetir que a morte é parte da vida, mas uma notícia de morte inevitavelmente nos toca, porque “somos parte integrante da humanidade”, como escreveu o poeta inglês John Donne. Portanto, quando se trata de uma pessoa querida, amada, não é mesmo fácil para nenhum de nós. Enfrentar o luto é um processo difícil em todas as idades de um ser humano, mas pode ser ainda mais difícil para uma criança, que sente e compreende subjetivamente a duração do tempo de uma forma diferente da do adulto.

Abordar a morte com a criança ainda deixa muita gente desconcertada, sem saber como fazê-lo. Muitos recorrem a eufemismos como “dormiu para sempre”, “virou estrelinha”, “viajou pra sempre”, não explicando na realidade o que aconteceu. Isso às vezes mais confunde do que ajuda – principalmente para as crianças mais novas, antes dos 6 anos, por já possuírem uma dificuldade em compreender a questão da irreversibilidade da morte. Desta forma, essas abordagens podem dar a algumas crianças a impressão de que o ente querido “desapareceu”, “evaporou”, “foi embora e não voltou”, gerando fantasias em sua mente, como de resgatá-lo ou ir ao seu encontro. No futuro, pode até dificultá-las a lidar com o luto de uma maneira equilibrada, pois em momentos oportunos não lhe foi apresentada a morte de uma forma esclarecedora.

Ao enfrentar o luto, uma criança pequena, que decerto ainda não sabe direito nomear seus sentimentos, pode reprimir suas emoções ou até mesmo expressá-las através de outros comportamentos ou sintomas (mecanismos de defesa), como a agressividade, a hostilidade, a negação, o isolamento social e às vezes até o sentimento de culpa. A fim de que essa perda vá sendo bem elaborada na estrutura psíquica das crianças é que se torna importante falar e ouvir falar da morte abertamente com elas, assim como mostrar que seu sofrimento é digno de respeito.

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O leãozinho Simba se viu desamparado e culpado após a morte do seu pai, Mustafa, no filme infantil “O Rei Leão”.

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A personagem Vada primeiramente teve uma reação de negação ao saber da morte do seu amigo Thomas, no filme “Meu Primeiro Amor”.

No meu último trabalho com atendimento em saúde mental infantil, num serviço público, eu cheguei em um momento bastante difícil. O psicólogo infantil que trabalhava lá anteriormente havia acabado de falecer em um acidente. Havíamos mais de cem pacientes, crianças e adolescentes, e claro que foi um triste momento de luto a ser vivido, já que a grande maioria possuía um vínculo longo e forte com o profissional. Após darmos a notícia aos pais (que também receberam com muito pesar e tristeza), recomendamos a todos eles que já preparassem e falassem a verdade com as crianças em casa, sem mentiras nem omissões, sobre a morte do então psicólogo delas. E foi preciso realmente muito cuidado e respeito para abordá-los sobre isso, principalmente por se tratar de crianças e jovens que já estavam no curso de um tratamento de um sofrimento psíquico – muitas inclusive que já vinham enfrentando outros processos de luto. 

É importante acolher todas as emoções e sentimentos da criança, e fazê-la perceber que é natural que sinta dor, tristeza, saudade, às vezes até mesmo raiva, naquele momento. Muitas crianças não conseguem falar sobre o que se passa com elas – mas não falar não significa que não estão sentindo. Muitas delas não conseguem nem mesmo chorar por um tempo. Fundamental ouvir o que as crianças têm a dizer, até mesmo encorajá-las a fazerem-no – ou dizer a elas que podem tentar se expressar através de desenhos. Deixem-nas brincar também, pois através da simbolização alçada na fantasia, algumas ansiedades podem ser aliviadas. Também não esconda da criança os seus próprios sentimentos e a sua própria dor. Isso tudo pode ir ajudando na elaboração do luto infantil.

A criança, como qualquer um de nós, pode enfrentar no curso de sua infância mortes trágicas ou mortes “esperadas”, como de uma pessoa em doença terminal; pode ser a morte de um bichinho de estimação, de um parente ou familiar, de um amigo ou amiga, do vovô ou da vovó, de um professor ou professora, e na pior das hipóteses, de um dos seus genitores ou principal cuidador/tutor – a figura em quem, geralmente, naquele momento, está se baseando como modelo para construir sua identidade e constituir sua personalidade. Em todos os casos, a criança precisa sentir que não ficou sozinha nesse momento de perda e ser apoiada desde o início, de preferência por alguém de confiança e de seu vínculo, e que possa lhe devotar afeto, carinho e cuidado durante o tempo necessário. É bom também que a pessoa que lhe dará a difícil notícia da morte seja essa mesma pessoa que estará a lhe acompanhar no processo do luto.

Muitos especialistas defendem a ideia de que seja facultado à criança (principalmente acima dos três anos) a escolha de participar dos ritos culturais de despedida (como funerais e enterros). Para eles, é bom explicar à criança do que se trata aquele momento e perguntar se ela deseja participar, mas nunca impor-lhe a vontade (nem de ir ou de não ir). Assim como elas participariam de outros ritos marcadores do tempo na cultura, como casamentos e aniversários, a participação nos rituais fúnebres seria também uma forma de ter-lhes preservado e respeitado o seu direito de se “despedir” simbolicamente da pessoa que amam, e assim fazendo da morte um evento menos traumático. Obviamente que, como tudo tem sua exceção, funerais derivados de grandes tragédias talvez não sejam realmente adequados para que crianças muito pequenas presenciem, dado que, em muitas vezes, muitos dos próprios adultos em luto costumam mostrar grande desespero e revolta nessas situações. Desta forma, no final o que conta é que o responsável pela criança esteja sensível a perceber a nuance da situação.

Para irem aprendendo a lidar com o tema do ciclo da vida, as crianças já podem ir sendo educadas através de atividades lúdicas – como explicar a elas sobre a vida das plantinhas e dos animais, fazendo com que elas se envolvam através de um momento de acompanhamento e convivência (a ideia de plantar e cuidar do feijãozinho no algodão, por exemplo). A arte também é sempre uma bela maneira de se tratar temas existenciais como a morte com as crianças, pois a arte ativa a sensibilidade, desperta para os sentidos e transcende o real. Livros, obras, filmes, músicas, teatros, contação de histórias: todos são interlocutores que podem ajudar a abordar o tema de morte até mesmo com bom humor. 

Dicas de alguns livros infantis sobre o tema:

“Começo, meio e fim” (Frei Betto)

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“Menina Nina” (Ziraldo)

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“A montanha encantada dos Gansos Selvagens” (Rubem Alves)

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“Quando os dinossauros morrem” (M. Brown)

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“O círculo do destino” (Raja Mohanty e Sirish Rao)

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“A história de uma folha” (Léo Buscaglia)

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“O pato, a morte e a tulipa” (Wolf Elrbruch)

pato morte tulipa

 

Vó Nana (Margaret Wild)

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A Poltrona Vazia (Sandra Saruê e Marcelo Boffa)

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Tempos de Vida (Bryan Mellonie e Robert Ingpen)

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A Velhinha Que Dava Nome às Coisas (Cynthia Rylant)

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A mulher que matou os peixes (Clarice Lispector)

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O guarda-chuva do vovô (Carolina Moreyra)

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Referência de leitura extra pra vocês: Luto na infância e as suas conseqüências no desenvolvimento psicológico. Louzette, F.L. e Gatti, A. L.  2007. 

Momento desabafo: Enquanto eu procurava as imagens pra ilustrar o post, acabei assistindo novamente um pedacinho do filme “Meu Primeiro Amor” (o momento do funeral). Pensem se não morri de chorar aqui novamente, pela enésima vez? rs