A criança não é de plástico

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Lembro-me recentemente de uma polêmica sobre a alimentação em torno de uma frase que dizia, somos aquilo que comemos. Discutiram a exaustão essa frase. Se ela tinha sentido, se não tinha, qual é o tipo da nossa comida, e por aí seguiu. Volta ou outra, o tema retorna.

Como alguém próximo da filosofia, eu diria algo a mais do que esta frase, somos aquilo que comemos, que escutamos, que falamos, que pensamos, somos os lugares que andamos…

Quero dizer que não somos uma ilha deserta posta no mundo. Uma mônada fechada e lacrada em si mesma. Somos feitos de uma tecido carnal que é, em si mesmo, poroso, permeável. Ou seja, algo do que comemos, do que vemos, ouvimos, e dos espaços, interferem em nosso modo de ser. Não somos uma essência dura e já pronta para enfrentar a vida. Ao contrário, somos um tecido poroso. Desse modo, podemos ser habitados por uma série de coisas.

Quando passamos um tempo observando o mar, as ondas, temos a sensação de que o mar nos invade, ou melhor, ao olhar para ele convidamos que ele nos habite por alguns instantes. Muitas pessoas se sentem tranquilizadas com essa paisagem. Assim também acontece ao olharmos demoradamente paras as montanhas aqui de Minas. Elas passam a fazer parte do nosso interior. Aliás, dizem que os mineiros são mais desconfiados que os outros brasileiros, pelo fato de viverem entre montanhas e nunca saberem bem o que pode vir do outro lado. Morar entre montanhas é diferente de morar no litoral e certamente isso tem um impacto na cultura local, na vida das pessoas.

É neste sentido que digo que somos “habitados” pelas coisas que comemos, olhamos, escutamos. Faz sentido a frase de que somos transformados de algum modo naquilo que comemos. Da mesma forma que também faz muito sentido em dizer que somos transformados naquilo que ouvimos.

Imaginem você uma criança crescer ouvindo que ela é burra, feia, chata, ou cara do papai. Algo disso tudo ela vai tomar para si ao internalizar essa escuta e essa paisagem. É justamente por isso, que precisamos ser zelosos com as situações que vamos expor nossas crianças.

Uma pergunta que me ajuda muito a pensar se eu devo ou não apresentar algo para uma criança é imaginar em que ela poderia se transformar ou ouvir, ver, comer tal coisa a ser apresentada. É obvio que, não vamos ser neuróticos (muito acentuados, seremos só um pouquinho mesmo!) com relação ao que nossas crianças veem, comem e escutam.

Mas também não podemos ser ingênuos em negar que as situações pelas quais estamos colocando aquela criança não a influenciará em nada. Precisa de zelo, muito zelo, neste processo. A criança tende a absorver muito mais coisas que nós. É como se o filtro delas fosse fino e permitisse passar mais ruídos que os nossos.

Essa situação transformaria meu filho/a em que?

Essa pergunta é uma ótima dica para discernirmos o que será melhor em sua alimentação, formação cultural, enfim, em sua educação em sentido geral.Enfim, seu filho não é um brinquedo de plástico e inatingível. Ele, como nós, é de carne porosa…

Como em educação não temos receita, perguntar é um ótimo caminho para se achar o melhor.

Na convivência não existe play, pause e off!

Front view of two boys (6-7, 8-9) playing Video Games

 escrito por Maria Beatriz Vasconcelos, pedagoga *

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“Eu descobri que as coisas boas da vida são de graça, não custam nada…”.
(Paula Santisteban e Eduardo Bologna)

Quero inaugurar a coluna trazendo algumas inquietações de uma professora preocupada com o modo de relações que são estabelecidas no convívio de nossas crianças.

A escola é o grupo social que a criança passa a participar formalmente posterior à família, que até então assumia todas as instâncias de formação e condução. Ela se torna um espaço privilegiado para o despertar do convívio social mais amplo e o desenvolvimento de muitas habilidades. Dentre todas elas destaco hoje o exercício da convivência, do aprender a ser “humano” em conjunto e assim construir várias possibilidades de crescimento em sociedade.

A partir deste momento na vida de uma criança, em que passa a freqüentar diariamente um espaço maior de convívio, muitos desafios são postos a todos os sujeitos envolvidos neste processo: famílias, professores e estudantes. Nesta prosa vou me ater ao desafio que acredito ser um dos mais importantes atualmente: o espaço tempo de construção da vida coletiva. Para a criança a escola torna-se o principal lugar da possibilidade de efetivação desta construção.

Neste sentido, muitas perguntas nos inquietam: quais as relações que nossas crianças estão estabelecendo no percurso de um crescimento saudável, pautado em uma socialização paciente e capaz de escutar, perceber o outro e aprender? Esta infância que hoje já manuseia aparelhos eletrônicos desde a mais tenra idade também está sendo estimulada e orientada para o convívio social? Será que elas percebem que o desafio da convivência não é simples como manusear um controle remoto, mouse ou manete de vídeo game?

Tem sido comum as queixas entre professores e professoras quanto às crianças chegarem à escola e ou frequentarem este espaço sem preparo para uma convivência coletiva. Meninos e meninas que fazem valer suas vontades diante de propostas para todos, ansiosos para falar, sem quietude para escutar, com dificuldade em esperar a vez e agitados durante todas as vivências na escola, até mesmo durante o momento da alimentação.

Tudo isto me faz refletir acerca do modo de vida que nossas crianças estão vivenciando e construindo em suas relações cotidianas. A cada família que converso escuto relatos de que boa parte do dia dos seus filhos tem sido ocupada com uma agenda cheia e por vários tipos de tecnologia digital, sem limite e equilíbrio no tempo de utilização. Isto me preocupa, pois sabemos o quanto as respostas dadas pelos aparelhos eletrônicos são imediatas… já na convivência coletiva isto nem sempre acontece. É preciso ser capaz de ser paciente, esperar e escutar ao convivermos em um grupo, para além do aspecto da discussão acerca da disciplina. Esta capacidade de se colocar em um grupo com tranquilidade e quietude é construída em diversas vivências que a criança participa. Aqui estou tratando da formação de um sujeito capaz de conviver socialmente e aprender diante do desafio que é perceber que assim como ele os outros também merecem atenção, escuta e participação.

Observo que muitos estudantes que apresentam dificuldades nas relações com os demais (paciência, escuta, etc), convivem diariamente com o uso excessivo dos aparelhos eletrônicos, comem ao mesmo tempo em que assistem TV e se distraem com outros objetos, sem dar um “pause”. Ao apreciarem uma leitura demonstram ansiedade pelo término e, se pudessem, usariam um controle remoto para controlar várias ações do dia – adiantar, voltar, pausar, pular.

Imagino que ao ler tudo isto a pergunta que fica é: Meu filho tem agido assim? E ai, o que fazer?

A opção que hoje me parece ser mais coerente com o aprendizado da convivência envolve uma escolha crucial: a urgência em priorizarmos a construção de outro ritmo nas relações em todas as dimensões. Vivemos o tempo do instantâneo, do imediato e isto reflete diretamente no desenvolvimento das crianças. A rotina de compromissos e o uso excessivo de tecnologias digitais parece estar substituindo vivências importantes nesta etapa de crescimento.

Cabe-nos investigar como está o tempo do ócio, da brincadeira, dos jogos na vida das nossas crianças. Estas práticas que deveriam ser privilegiadas estão sendo deixadas de lado. Através destas, poderíamos possibilitar estímulos e incentivos à percepção de que tudo envolve processo, principalmente a convivência no coletivo.

Precisamos redirecionar o nosso olhar e nossas ações em busca de um novo ritmo de organização e interação social. A escola reflete o que a sociedade e a época apresentam. E já sabemos que o momento é desafiador. Devemos então começar uma forte parceria para incluirmos práticas simples, mas grandes em significados no dia-a-dia das crianças. Experimentar atividades que oferecem a percepção do processo e a construção da paciência pode ser “… de graça, não custam nada” como nos diz esta linda canção.

Plantar, cozinhar, apreciar a arte em suas diversas linguagens, caminhar, criar algo novo… BRINCAR!!!! Tudo isto certamente envolve outra temporalidade e nossas crianças poderão crescer se relacionando melhor coletivamente, sabendo esperar e percebendo que tudo tem um tempo próprio e que a convivência no coletivo não se dá com auxílio de play, pause e off!

(Créditos da ilustração: retirada do Google imagens / Image by Mike Kemp/Tetra Images/Corbis)

Maria - Foto para coluna

TEXTO ESCRITO PELA COLABORADORA:

Maria Beatriz  Vasconcelos, pedagoga, especialista em Educação Infantil. Atua como Professora Alfabetizadora na rede pública e privada em Belo Horizonte. Possui experiência como consultora educacional em formações docentes no segmento da Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.

Contatos:  mariabeatrizrn@hotmail.com / (31) 9480-4317

Comunicação e motivação – Post 2: como motivar a criança

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“Somos todos geniais. Mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará sua vida inteira acreditando ser estúpido”. (Albert Einstein)

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”.  (Freud)

No post anterior, comentei com vocês como às vezes nós esperamos que a situação mude, mas não mudamos nossas atitudes perante a situação. Assim, insistimos em agir de uma determinada forma que achamos que vai dar resultado, mesmo que a realidade esteja nos mostrando que nada está mudando.

Percebi isso em muitos atendimentos nos quais observava algumas atitudes adultas que não promoviam nenhuma motivação para a criança mudar seu comportamento. Taí a nossa palavra-chave.

Alguns pais relatam um determinado comportamento inadequado e repetitivo da criança – birras, desobediência, agressividade – e tentam corrigi-los com uma constante repreensão, críticas e punição. Não foram poucas as vezes em que me deparei com adultos que já não elogiavam os filhos e nem mesmo descrevia nenhum de seus aspectos positivos. Tudo que eu ouvia eram palavras negativas, às vezes com raiva, cansaço, irritação – o que é totalmente compreensível, porque, como eu disse no post anterior, a gente sabe que se trata de um erro tentando acertar. Isso acontece com todos nós.

Mas para compreendermos como as palavras negativas influenciam na atitude da criança, tornando-a desmotivada a agir da forma adequada, e como uma comunicação positiva serve de estímulo aos comportamentos desejados, costumo fazer uma analogia com um ambiente de trabalho adulto.

Suponha que seu patrão pediu-lhe para realizar uma nova tarefa, e ensinou-lhe como fazer, passo a passo. Na primeira vez você fez rápido, de forma desleixada e equivocada, e apresentou a tarefa realizada a ele. Ele criticou o seu comportamento e o trabalho feito, apontando todos os defeitos que carregava e afirmando que você era incapaz. Então pediu, de forma ríspida, que fizesse novamente e corretamente, ou receberia uma punição. Você, desta vez, com medo de ser criticado e punido, fez o trabalho com mais cuidado e tentando prestar atenção aos pontos importantes. Apresentou a tarefa ao seu patrão, que criticou os erros que ainda haviam sido cometidos e, sem observar o esforço que você dedicou, aplicou-lhe a punição e ainda lhe deu mais trabalhos, completando que duvidava que você desse conta. Você agora se esforça e tenta fazer da melhor forma possível, mas o patrão já espera que você vá apresentar errado, e a todo momento critica-o e  duvida da sua capacidade, dizendo que você nunca faz nada corretamente e não consegue cumprir ordens. Novamente, ao entregar a tarefa ao patrão, ele só enxerga os defeitos, criticando-os e punindo-o, e nem percebe a sua dedicação e os acertos que você conseguiu obter naquela tarefa. Em determinado momento, aquele ciclo te deixa cansado, e você, sabendo que o patrão só vai criticá-lo e nunca vai enxergar seus pontos positivos, desiste de fazer a tarefa bem-feita e volta a fazer de forma desleixada – afinal, é isso que ele espera mesmo de você (e também porque você já está tão irritado que passou a “pirraçar” o seu patrão).

Suponhamos agora essa mesma situação, diante de um patrão com outra atitude. Ao receber o seu primeiro trabalho realizado de forma desleixada, ele chama a sua atenção para os pontos negativos mas ressalta os positivos, dizendo que sabe que você é capaz de muito mais do que aquilo. Assim, pede-lhe para fazer novamente o trabalho, se oferecendo para sanar qualquer dúvida. Você realiza novamente, um pouco contrariado, mas tentando não cometer os mesmos erros para não desapontar o patrão. Ao apresentar novamente a tarefa, seu patrão elogia-o, dizendo como você melhorou da última vez para agora, e que, apesar de ainda ter alguns erros no trabalho, gostou de saber que você se esforçou e que mostrou que pode ser capaz. Ele, depois de ressaltar seus aspectos positivos, lhe aponta onde ainda existem erros e como você pode corrigi-los, usando suas habilidades. Você gostou de receber aqueles elogios e conquistar a confiança do patrão, então agora procura seguir suas coordenadas e realizar a tarefa conforme foi pedido. Ao apresentar novamente, o patrão elogia-o pelo cumprimento e pela constante evolução, parabeniza-o pelo esforço e pela tarefa bem cumprida, e ao enxergar um pequeno engano irrelevante cometido, ignora-o para não desmotivá-lo. Porém, ao pedir-lhe a próxima tarefa, o patrão fica atento se esse engano está sendo cometido novamente, enquanto você está desenvolvendo o trabalho; e ao perceber que você vai se equivocar desta vez, orienta-o sobre qual o caminho melhor a seguir naquele momento. Você sente que está agradando ao patrão, que ele está prestando atenção em você e te dá valor; dessa vez, faz seu trabalho com bastante atenção e cuidado, da forma que ele lhe orientou. Ao apresentar ao patrão, este novamente o elogia e ainda lhe dá aquele dia de folga que você estava querendo, pois você conseguiu adiantar seus trabalhos e se superou. A partir desse dia, você ficou muito mais motivado a trabalhar e cumprir as tarefas, mostrando todas as suas habilidades.

Claro que não estou “comparando” uma relação de trabalho a uma relação parental; foi apenas uma analogia grosseira para percebermos que certos comportamentos são próprios do ser humano, adulto ou criança, e não exclusivamente do universo infantil. Assim, por exemplo, um elogio (SINCERO, ESPONTÂNEO E VERDADEIRO!) pode ser força motivadora de qualquer pessoa. E às vezes, se pararmos pra refletir que aquilo poderia ser a minha realidade, talvez possamos compreender melhor como a criança se sente em uma situação semelhante.

Invistamos, pois, em observar mais os aspectos positivos de um comportamento e ressaltá-los. E, mesmo que os aspectos negativos ou inadequados estejam muitos fortes e resistentes, tomemos o cuidado de não deixarmos que isso impeça-nos de enxergar a totalidade da realidade daquela criança. (Que fique bem claro: isso não é viver como “Poliana” nem “ver o mundo cor-de-rosa”, não. Simplesmente é importante que a correção venha acompanhada de reflexão e de motivação).

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(Créditos das fotos: retirada do Google Imagens)

 

Comunicação e motivação – Post 1: Sobre errar, aprender e mudar

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“É insanidade fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes”. (Albert Einstein)

“Alguém que nunca cometeu erros, nunca tratou de fazer algo novo”. (Albert Einstein)

Imaginem vocês que eu tenho em mãos uma garrafa de água, fechada com uma tampa. Eu quero abrir essa garrafa, mas não sei como funciona seu mecanismo de abertura. Então eu tento girar a tampa no sentido contrário à sua abertura, fechando-a ainda mais. Estou vendo que ela não está abrindo, mas eu continuo acreditando que é desse jeito que eu vou abrir a garrafa. Assim, junto todo meu esforço e continuo girando a tampa nesse sentido. E passam-se horas nessa tentativa, mas a garrafa não abre.

Qual seria a atitude mais razoável que eu teria de tomar, diante dessa evidência que se me mostra?

Bom, imagino que vocês tenham respondido “tentar outra forma de abrir a garrafa, já que você percebeu que assim você não conseguirá”.

Pois é. Às vezes passamos muito tempo insistindo numa tentativa de fazer as coisas mudarem, mas agindo sempre da mesma forma.

Vejam bem: reconhecer que era preciso mudar de atitude não significa que eu não estivesse tentando abrir a garrafa na melhor das intenções, com esforço e dedicação. Eu estava colocando toda a minha energia e estava fazendo o melhor que eu podia, naquilo que eu achava que era correto. Assim como tantos pais ou educadores fazem com suas crianças.

Mas em determinado momento, preciso humildemente perceber que, se não está funcionando daquele jeito, é porque o jeito que estou tentando pode estar equivocado.

Falamos muito sobre como as crianças aprendem com os erros, mas é bom lembrar que os erros são e serão cometidos por todos nós também, adultos. Inevitavelmente. E é através dos erros que vamos tentando abrir novos caminhos na educação.

Quantas vezes não ouvi pais lamentando que “sempre coloca a criança de castigo, mas ela não melhora”, “sempre faz tudo o que ela quer, mas ela não lhe obedece”, “sempre fala pra ela que é uma malcriada, mas ela não ouve”. Vamos refletir: se depois de um longo tempo de tentativa de mudança do comportamento da criança através de determinadas atitudes, percebemos que a criança não muda, ou até piora, é preciso parar e verificar se não estamos tentando abrir a garrafa no sentido contrário. E aí, tentar uma nova forma de abri-la.

Nem sempre a garrafa pode abrir apenas girando a tampa para o outro lado – isso também pode não dar certo. É preciso entender que, às vezes, tentarei várias formas de abrir aquele recipiente, mas no final descobrirei que aquela tampa nem abre girando, ou que a tampa está do outro lado, ou que a garrafa possui abertura vertical. Algumas, só com abridor; outras, só saca-rolhas. Para isso, é preciso estarmos bem atentos, observar bastante “nossa garrafa” e prestar bastante atenção no que é que a situação está me solicitando.

Reconhecer que a realidade está nos pedindo outra coisa é um primeiro passo para a mudança (da nossa atitude e da realidade que eu quero mudar). A partir do momento em que percebemos que nossa ação está caminhando num sentido em que nada muda, é hora de refletirmos, observarmos e tentar girar a tampa da garrafa em outras direções.

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No próximo post, dando continuidade a este assunto, vou comentar situações difíceis em que às vezes, insistimos em agir da mesma maneira, e quais resultados podem decorrer disto.

(Créditos das imagens: Banco de imagens do Google, e https://365nuncas.wordpress.com)

Não podemos fugir das frustrações

Ninguém disse que crescer seria fácil. Existir traz muitos conflitos e, queiramos ou não, virão erros e acertos, sucessos e fracassos durante toda a vida. Mas, e na educação? As crianças estão sendo preparadas para “falhar”? De quantas frustrações elas estão sendo privadas para que se garanta a sua plena satisfação?

Alguns papais e mamães relatam muita dúvida de quando devem começar a estabelecer limites à criança, e com que idade devem começar a dizer “não”. Muita confusão é formada a respeito do que se fala sobre a importância da “frustração” para o desenvolvimento psíquico infantil.

lindando com a birra

Ao contrário do que parece, obviamente não estamos falando aqui de deixar um bebê de colo chorar por horas no berço, como apregoam algumas linhas (na minha opinião, questionáveis) por aí. Mas podemos sim, falar de “aprender a lidar com a frustração” desde a fase de bebê e a primeira infância. E não se trata de “impor” frustrações para que eles lidem com elas (seria crueldade, hein?), mas de aprender a lidar com aquelas que muitas vezes a própria natureza impõe ou que aparecem em situações da própria vida – inevitável e invariavelmente -, sem tentar privá-las dos desprazeres o tempo inteiro.

Para entender melhor, voltemos ao recém-nascido, primeiramente. Ao nascer, o bebê vivencia a sua primeira “frustração”, ao sair do conforto do útero materno. É a partir dessa frustração que o bebê aprende a se esforçar para respirar através dos seus pulmões (já que antes não havia esforço, devido à utilização da circulação fetal). As frustrações de fome, de sede, novamente forçam o bebê a tornar-se ativo, a chorar e a “procurar” por alimento. Percebem a importância da “frustração” de cada momento?

Recorrendo agora aqui a uma leitura psicanalítica do desenvolvimento infantil, o recém-nascido ainda não possui a sua estrutura psíquica totalmente formada (pois o que se costuma chamar de “ego”, ou “consciência do eu”, é formado na relação com um “outro”), e a visão de mundo de um bebê ainda é extremamente egocêntrica, então, na visão do bebê, ele e mamãe são “um só”, e a mamãe estará ali para atendê-lo de forma imediata a todo momento que ele requerê-la. E claro que, geralmente, o esforço ideal de toda mãe é para isso mesmo: para que seu bebê não passe fome, frio, sede, sono, não fique doente. Assim, as mães se doam completamente, perdem sono, “padecem no paraíso”, como costumeiramente dizemos. É natural que a mãe queira estar em momento integral disponível para o seu bebê (e, na verdade, é até mesmo ideal que seja assim, principalmente no que diz respeito ao total envolvimento afetivo-emocional com o bebê, ou seja, à completa entrega do amor!). Mas no plano real, sabemos que muitas vezes a satisfação imediata das necessidades do bebê não é exatamente possível em todos os segundos do dia, certo? Afinal de contas, teve uma horinha ali em que o bebê chorou cerca de meio minuto a mais e ficou esperando o seio para mamar, que foi só aquele tempinho que demorou pra que você apenas terminasse de engolir o seu único lanche do dia, aquele que você tinha acabado de começar quando ouviu ele chorar… ;-)

Então, são momentos como esse, nos quais o bebê vai vendo que a mãe não está respondendo de forma imediata (literalmente) às suas frustrações naturais, é que ele vai percebendo também que a mãe não só é um “outro” diferente dele, como também “existe para outros“, para outras coisas do mundo; assim como existem outras coisas externas a ele que também carregam a atenção da mãe (como, num exemplo típico: o trabalho, o cônjuge, outros filhos, outros afazeres). E é preciso que ele vá percebendo isso mesmo, de forma que a percepção de alteridade vai se formando em seu psiquismo.

– Então isso quer dizer que eu posso deixar meu neném chorando, esperando um pouco, que é bom pra ele?

NÃO, genteabsolutamente, eu NÃO disse isso em momento algum. O que quis explicar é que as frustrações impostas naturalmente e inevitavelmente ajudam o pequeno bebê a ir compreendendo a diferenciação de si e do outro, e também a ir lidando com a realidade aos poucos.

Com isso, também, quero mostrar que o “afeto do desprazer” (a frustração) é importante sim ao desenvolvimento do ser humano, tão importante como o “afeto de prazer” (a satisfação)!  Se frustrar faz parte! Faz parte e é necessário! E isso é para o resto do nosso ciclo vital.

Assim, à medida que vai crescendo, durante toda a infância, muitas frustrações “inevitáveis” também vão ocorrer na vida da criança de outras formas, ou seja, situações em que dizer ou sustentar um “não”, em que “impor um limite”, é o mais adequado para seu desenvolvimento. Por exemplo (já não falando mais dos bebês): quando a criança  quis levar o brinquedo que não era dela pra casa, mas não podia; quando quis o chocolate de todo jeito fora do horário, mas não seria bom para sua saúde; quando perdeu no jogo com o coleguinha, e precisou aceitar; quando a professora lhe chamou a atenção por estar conversando na classe, e ela se chateou porque esperava contar com o apoio da mãe para revidar a professora; dentre várias outros momentos. Vocês cederiam a todas essas situações, revertendo-as para que as crianças ficassem satisfeitas? E se elas iniciassem uma birra a cada uma dessas frustrações citadas acima?

Às vezes pode ser muito difícil para alguns pais conseguir sustentar esse “sinto muito, mas temos que aprender a lidar com isso” que a frustrará, mas nessas horas é que entra uma explicação terna (geralmente as crianças a partir dos 2 anos compreendem mais, devido à aquisição da linguagem). Eu costumava dizer na orientação aos pais: Você pode dizer “não” de forma firme e carinhosa ao mesmo tempo, explicando-lhe sempre o motivo do seu limite e, com isso, tentando levá-la a entender que você está dizendo “não” porque a ama e porque é para o bem dela. É importante que esteja claro o motivo e a razão de você estar fazendo aquilo – mas sem ceder. Isso vai ensinando a criança a aceitar melhor as situações frustrantes, e desta forma ela vai gradualmente amadurecendo, pois através de conversa, diálogo, explicações e conversas assertivas com amor, ela pode compreender, ao longo de seu crescimento, que o mundo não funciona para atender às suas vontades o tempo inteiro, e que nem tudo pode ser do jeito que ela quer. Ela não vai deixar de se frustrar, mas vai aprendendo a lidar melhor com isso.

Muitos pais que atendi esperavam que simplesmente a criança “aceitasse calmamente e passivamente” as situações frustrantes (seria um sonho, né) – ficando eles mesmos (pasme!) frustrados diante de uma situação que não lhes saiu conforme esperado. Eu costumava dizer a eles, “Olhem para vocês. Se até nós, adultos, ficamos chateados quando algo não sai como esperávamos, nos frustramos perante um fracasso, um erro, uma falha (e isso é absolutamente normal enquanto não nos destruir), como vamos exigir de uma criança – que teoricamente é mais imatura em termos de desenvolvimento psíquico – que ela não fique chateada em um momento desse? No início da aprendizagem, é claro que elas vão reagir, elas vão rebater, algumas podem fazer ‘birra’, outras podem querer impor sua vontade de qualquer maneira. A única coisa que podemos fazer é ir ensinando-as a lidar com essas situações – por isso é importante não ceder. Pois frustrações acontecerão a vida inteira, e nos chatearão a vida inteira. Se lhe forem sempre satisfeitas, quando forem adultos, como lidarão com as frustrações? Poderão fazer ‘birra’ com a vida?”

Diriam alguns ainda que, se podiam evitar uma situação frustrante, “revertendo-a”, então ela não seria uma “frustração inevitável”. Calma lá. É claro que se pode tentar evitar algumas situações frustrantes, por exemplo, como podemos evitar tirar uma nota ruim numa prova, estudando melhor; mas em determinado momento uma situação de frustração será, sim, inevitável ou até mesmo necessária, e quando ela já aconteceu ou está na hora de acontecer (por necessidade de imposição de limites a um comportamento inadequado, por exemplo), você não está mais evitando-a, você já está privando a criança dessa frustração, cedendo invariavelmente às suas vontades quando não é adequado ou possível. Isso pode ser prejudicial, sim, à criança durante o curso do seu desenvolvimento, pois poderia vir a formar meninos e meninas constantemente insatisfeitos e “birrentos”, muitas vezes incapazes de ver sob o olhar do “outro”, pois não estão deixando que se construa em seu psiquismo a noção de que existem “outro/as” além da sua própria vontade; assim como futuros homens e mulheres em muitos casos egoístas e com dificuldades em compreender e aceitar as realidades e dificuldades da vida adulta, o que poderia vir também a causar um grande sofrimento psíquico neles mesmos.

Não se poder fugir das frustrações, e as crianças precisam ser ensinadas sobre isso. Bebês se frustram, crianças se frustram, jovens se frustram, adultos se frustram. Conseguiremos, conquistaremos, sim; e precisamos estar motivados para vencer. Mas também falharemos, fracassaremos; e precisamos estar preparados para perder. Aquele que está acostumado a ser privado de frustrações e ter seus desejos sempre satisfeitos, ao ter-lhe a primeira dificuldade imposta pela vida – através do fracasso, da falha, do erro, da perda, da decepção -, poderá não enfrentar esse momento com o devido equilíbrio (como poderia o fazer uma outra pessoa que lidou com as frustrações durante seu curso de desenvolvimento), podendo inclusive recorrer a tentativas paliativas de se “privar” de “sentir” a frustração. É preciso entender que viver sem desprazeres é impossível. Em uma sociedade já tão individualista, que cultiva constantemente a busca plena do prazer, e que já tenta evitar as frustrações de todas as formas, proporcionando tantas vezes um “conforto artificial” – através de instituições, políticas, ‘sedativos’, entretenimentos, alienações – ao menos o processo educativo familiar pode tentar contribuir com a formação de cidadãos menos intolerantes às frustrações que a própria existência lhe imporá.

OBS: Sugestão complementar de leitura: Divulgamos ontem na nossa fanpage essa entrevista com o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun, que fala justamente de uma dificuldade contemporânea em educar para a frustração e o erro, já que é preciso compreender que a “satisfação plena” nunca será alcançada e que falhar será inevitável durante o curso da existência. Recomendo. http://www.contioutra.com/ensinem-os-filhos-a-falhar/