Como a licença paternidade do criador do Facebook pode influenciar a vida de mães e pais trabalhadores

Mark Zuckerberg, o jovem programador e empresário estadunidense, conhecido mundialmente por ser um dos fundadores da maior rede social do mundo, o Facebook, anunciou recentemente que vai se afastar de suas atividades profissionais por dois meses para “lamber a cria”, quando chegar a bebê que ele e sua esposa Priscilla estão esperando!

Fonte: Facebook do Mark, do post

Fonte: conta pessoal do Mark no Facebook, do post em que ele anunciou que estão esperando uma menininha! (alguém me explica o pelo desse cachorro?! Que coisa mais aconchegante! rs)

Ele reforçou que estudos mostram que, quando os pais que trabalham têm tempo para estar com seus recém-nascidos, os resultados são melhores para as crianças e família! E que, no Facebook, eles oferecem aos funcionários até 4 meses de licença parental remunerada. O benefício inclui também casais do mesmo sexo e mamães e papais adotivos.

Fonte: conta pessoal do Mark no Facebook.

Fonte: conta pessoal do Mark no Facebook. O dog sentindo as mudanças que estão acontecendo com os preparativos pra chegada do bebê!

Essa é uma política muito generosa para os padrões dos Estados Unidos, já que esse país, considerado hoje a maior potência econômica mundial, oferece somente 12 semanas de licença maternidade e sem nenhuma remuneração. E a licença paternidade não existe!

Generosa também se comparada ao Brasil, onde a Constituição, no caso dos papais, garante apenas preciosos cinco dias! Uma grande incongruência tendo em vista a configuração atual de família, na qual fica clara a tendência de maior equilíbrio na divisão de responsabilidades entre mamães e papais, que estão participando cada vez mais de todas as fases da criação dos filhos, desde a gestação, não apenas pelas necessidades dos filhos, mas também pelas das mães! (Veja Instituto Papai, uma ONG que busca reverter a invisibilidade da experiência masculina no contexto da vida reprodutiva e no cuidado com as crianças, e luta para equiparar a licença paternidade com a licença maternidade)

O casal gestante e os pais e irmã do Mark. Fonte: perfil pessoal do Mark Zuckerberg no Facebook.

O casal gestante e os pais e irmã do Mark. Fonte: perfil pessoal do Mark Zuckerberg no Facebook.

Mas a verdade é que nem todos os empregados que têm esse direito o aproveitam, por temerem que possa prejudicar suas expectativas profissionais. Ainda há um paradigma de que você tem que priorizar o seu trabalho à sua família, que os homens são responsáveis pelo “ganha-pão” (apesar de as estatísticas dizerem o contrário), e mulheres que focam no trabalho são crucificadas como péssimas mães.

As mulheres já sofreram muita discriminação e penalidades no trabalho ao tornarem-se mães. E, quando os homens tiram esta licença, fica evidente que equilibrar família e vida profissional não é um desafio exclusivamente feminino, promovendo maior compreensão e empatia entre os sexos, no intuito de atravessar o longo caminho da eliminação de estereótipos desatualizados e inúteis, que prejudicam a todos.

Marissa Mayer em 03/11 no Fortune Global Forum in San Francisco, California.  (Photo by Kimberly White/Getty Images for Fortune)

Marissa Mayer, CEO do Yahoo, em 03/11 no Fortune Global Forum, grávida das gêmeas previstas para nascerem neste dezembro. Fonte: The Huffington Post

A CEO do Yahoo, Marissa Mayer, que foi contratada em 2012, quando estava grávida de seis meses do seu primeiro filho, chocou o mundo corporativo ao se afastar da empresa por apenas duas semanas após o parto. E por continuar tomando decisões e remotamente trabalhar durante esse período! Foi duramente criticada pelo curto afastamento e, ao mesmo tempo, por não ter se dedicado o suficiente ao seu trabalho. Que paradoxo!

Bem, pouco depois Marissa estava reluzindo nas listas dos CEOs mais bem pagos da América, ganhando bônus milionários pelos excelentes resultados alcançados. E agora, três anos depois, declarou que, como sua atual gravidez tem sido tranquila, está prevendo tirar outra igualmente breve licença.

Sua posição gerou estranhamento, pois vai de encontro às recentes notícias de que relevantes corporações como a Microsoft, Spotify e Netflix também expandiram seus prazos de licença parental remunerada.

A Netflix, por exemplo, está oferecendo a seus empregados até um ano de folga! Mas esse tipo de política pode ser impraticável, pois os trabalhadores muitas vezes temem o julgamento de seus colegas, já que nesta indústria o costume é trabalhar 50 horas por semana.

Ou seja, enquanto as mulheres ainda lutam contra os baixos salários, menores oportunidades e o estigma de que são seres que devem ser voltados para a família e não para o trabalho, os homens da geração de Zuckerberg enfrentam o desafio de serem pais mais envolvidos. E todos sofrem com a ideia de que, para ser profissional, nada tem que ser tão importante quanto o seu trabalho.

O envolvimento familiar cria importantes elos para a vida inteira. E a decisão do CEO de uma das empresas mais inovadoras e admiradas do mundo mostra que está tudo bem em priorizar a sua família, nem que seja por um pequeno segundo, enquanto você tem um bebê novinho em folha em casa!

Há uma boa chance de que ele vai inspirar outros pais a tirar uma folga, e a outras empresas e países a valorizarem a qualidade de vida de seus trabalhadores.

Preocupação cuidadosa primária e secundária

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Texto escrito por Fábio Belo, Professor adjunto de Psicanálise, da UFMG*

 Winnicott tem um conceito bastante importante: preocupação materna primária. Através dele, o autor nos diz de um estado especial que as mães ocupam quando estão grávidas e nos primeiros meses de vida do bebê. Trata-se de uma preocupação no sentido de uma identificação com seu bebê de tal forma a estar presente de forma estável e suficientemente boa para aquilo que a criança precisa e demanda espontaneamente para continuar a ser, sem muitas interrupções e invasões.

Tenho criticado recentemente o caráter ideológico desse conceito. A meu ver, ele acaba por atrelar muito fortemente a condição física e também de gênero à noção de cuidado. Como o próprio nome do conceito indica, trata-se de algo materno. Ora, o cuidado, no entanto, é uma capacidade psíquica que devemos pressupor em todos os humanos, independente de sua condição anatômica e de gênero. Acredito ser mais winnicottiano, inclusive, acolher gestos cuidadosos como parte do que alguns de nós endereçam espontaneamente para os outros.

Por preocupação cuidadosa primária entendo o cuidado que um sujeito tem para com um bebê. Tanto faz se é homem ou mulher, pai ou mãe, biológicos ou não. Trata-se do desejo suficientemente estável de acolher o bebê também como sujeito, mesmo que seu comportamento nada diga da presença efetiva de um eu organizado. Essa pressuposição identificatória – ver alguém completo e complexo já desde os primeiros dias (e até no útero) – é a base da preocupação cuidadosa. Trata-se ainda de estar atento ao gesto espontâneo da criança no sentido de constituir uma temporalidade adequada ao cuidado. Não chegar nem muito cedo, nem muito tarde. A preocupação não é ansiosa, apenas atenta de forma quase permanente. Nesse sentido, é ato de cuidado saber esperar que a criança demande para só então agir para atender a esse chamado, de forma disponível e estável.

A partir dessa base, o adulto pode se distanciar aos poucos e também ir apresentando novos elementos à criança de tal forma a ir dando a ela condições de distinguir entre seus desejos e os limites que o adulto e o mundo impõem a eles. Aqui entra em jogo a preocupação cuidadosa secundária, presente ao longo de toda a vida. Trata-se do jogo que fazemos uns com os outros de estar disponível, momentaneamente, para escutar e fornecer espaços potenciais para que o desejo de alguém possa se apresentar e se realizar em alguma medida.

No campo da educação, a criança irá exigir bastante dessa preocupação secundária, pois ela deseja atenção e espaço para manifestar-se e ser escutada de forma singular. O sistema educacional, no entanto, como deve fazer a criança se adequar muitas vezes, será alvo de grandes ataques da criança. É preciso escutar os muitos tipos de ataque que a criança endereça aos adultos em situação pedagógica. Alguns desses ataques podem significar que o adulto perdeu algo, deixou de ver algo importante que a criança está a dizer e que ele deve voltar atrás e tentar escutar melhor.

A preocupação cuidadosa secundária cria, portanto, um espaço transicional no qual todos os envolvidos aprendem a jogar com paradoxos importantes, como aquele que diz que podemos estar juntos mesmo um tanto isolados uns dos outros. Podemos realizar muitos dos nossos desejos, mesmo que sempre abrindo mão de partes importantes deles. Podemos auxiliar o outro a enunciar melhor o que deseja, dentro da possibilidade de realização do mundo que ocupa.

A educação é a arte de operar com essa preocupação cuidadosa secundária. Saber o momento de fazer o mundo ceder mais espaços e também o momento de fazer o sujeito cooperar e encontrar uma forma mais possível de se realizar no mundo em que ele encontra. Principalmente: a educação é a fabricação permanente de um espaço potencial, um espaço que continue sempre a se engendrar, no qual tal jogo possa continuar a ocorrer sem exigir renúncia e submissão em demasia de nenhum de seus participantes.

 Belo Horizonte, 30/05/2015

fabiobeloTEXTO ESCRITO PELO COLABORADOR:

Fábio Belo, psicólogo e psicanalista, Mestre em Estudos Psicanalíticos (Fafich/UFMG), Doutor em Literatura (Fale/UFMG) e atualmente é professor adjunto de psicanálise no departamento de Psicologia/UFMG. 

Contatos: www.fabiobelo.com.br / fabiobelo76@gmail.com

Vamos brincar com nossas crianças

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Texto escrito por Rafael Carvalho, psiquiatra infantil*

Olá queridos(as) leitores(as). É com enorme prazer e satisfação que inauguro esse novo espaço no qual compartilharemos e discutiremos temas diversos sobre Psiquiatria da Infância e Adolescência,  educação e comportamento infantil. É sabido que profissionais de saúde, principalmente aqueles envolvidos na Psiquiatria/Psicologia não devem aconselhar seus pacientes e sim ajudá-los a encontrar os próprios meios de solucionar seus conflitos. Mas me julgo no direito de já começar “errado” (rsrsrs) e contrariar a regra! Aí vai um grande conselho, daquelas famosas dicas de ouro: Vamos brincar com nossas crianças!!!

Mas vocês, queridos(as) leitores, diriam: “Nossa, além de aconselhar, ele foi muito óbvio” !!?!!

Não meus caros, não fui! Como vocês perceberão, não é assim tão simples e instintivo. Muito do que discutiremos sobre educação infantil exige método, paciência, regularidade e muita, muita dedicação. Não é diferente com a atitude de brincar com as crianças. Sabe aqueles compromissos que nós temos e que não podemos deixar de cumprir nunca, nem mesmo nos dias em que não sobra tempo para nada, em que estamos cansados, tristes ou irritados ? Assim também deve ser nosso compromisso de brincar com nossos filhos.

Nesses momentos preciosos os pais intensificam os laços de intimidade e cumplicidade com suas crianças. Nesses momentos nos aproximamos de verdade dos nossos filhos, conhecemos a forma infantil de ver o mundo e descobrimos as particularidades que fazem sua criança única e especial.

Introduzo aqui um conceito sobre o qual voltaremos a conversar : O Recreio Especial.

Consiste em convidar seu filho DIARIAMENTE (TODO DIA MESMO, MESMO AQUELES MAIS DIFÍCEIS) para brincar com você durante 30 minutos. Não é tanto tempo, dá para ser feito. Ele escolhe as brincadeiras a serem realizadas, nas regras dele e você verá o quanto ele se sentirá realizado e amado. Vale ensinar algumas brincadeiras clássicas, de sua infância (depois explico o porquê das “brincadeiras clássicas”!). Não vale ver TV ou coisa semelhante; é preciso interagir diretamente no tempo em que permanecerem juntos. Dessa forma você aumenta seu vínculo e cumplicidade com seu filho e experimentará uma relação mais próxima e prazerosa. Outro beneficio imenso é que você também aumentará  a tendência de seu filho de colaborar com você e obedecer. Você e ele ganham em todos os sentidos!

Além de aproximar você de seu filho, promovendo até mesmo a obediência, o “recreio especial” preenche uma lacuna moderna da vida das crianças: A dificuldade para brincar “de verdade”. Tente se lembrar da sua infância e das brincadeiras que você brincava: Esconde-esconde, queimada, rouba-bandeira, amarelinha, colorir, desenhar, bicicleta, patins, futebol (na rua!!! Praticamente impossível hoje, infelizmente), forca, adedanha. Mas cadê o computador, o tablet, o celular, o vídeo game? Não precisávamos deles! Nossas brincadeiras eram simples, divertidas e dinâmicas. Nos exercitávamos, corríamos e além de nos divertir, evitávamos o sedentarismo! Bom demais!!! Crianças felizes e ativas. Podemos ajudar a evitar a obesidade infantil e seu filho gastará energias, irá descansar e dormir bem e sobra tempo para os pais ficarem juntos, o que passa a ser um privilegio após a paternidade/maternidade.

Sendo assim, desta vez posso aconselhar e vocês estão livres para escutar meu conselho: Vamos brincar com nossas crianças!!

(crédito da imagem deste post: Google Imagens)

RafaelTEXTO ESCRITO PELO COLABORADOR:

Rafael Almeida de Carvalho, graduado em medicina (UFMG), é médico psiquiatra infantil com formação em Psiquiatria pelo Hospital Ipsemg e em Psiquiatria da Infância e Adolescência pelo Hospital das Clínicas de Minas Gerais. 

Contato: rafaelcarvalho125@yahoo.com.br 

A criança não é de plástico

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Lembro-me recentemente de uma polêmica sobre a alimentação em torno de uma frase que dizia, somos aquilo que comemos. Discutiram a exaustão essa frase. Se ela tinha sentido, se não tinha, qual é o tipo da nossa comida, e por aí seguiu. Volta ou outra, o tema retorna.

Como alguém próximo da filosofia, eu diria algo a mais do que esta frase, somos aquilo que comemos, que escutamos, que falamos, que pensamos, somos os lugares que andamos…

Quero dizer que não somos uma ilha deserta posta no mundo. Uma mônada fechada e lacrada em si mesma. Somos feitos de uma tecido carnal que é, em si mesmo, poroso, permeável. Ou seja, algo do que comemos, do que vemos, ouvimos, e dos espaços, interferem em nosso modo de ser. Não somos uma essência dura e já pronta para enfrentar a vida. Ao contrário, somos um tecido poroso. Desse modo, podemos ser habitados por uma série de coisas.

Quando passamos um tempo observando o mar, as ondas, temos a sensação de que o mar nos invade, ou melhor, ao olhar para ele convidamos que ele nos habite por alguns instantes. Muitas pessoas se sentem tranquilizadas com essa paisagem. Assim também acontece ao olharmos demoradamente paras as montanhas aqui de Minas. Elas passam a fazer parte do nosso interior. Aliás, dizem que os mineiros são mais desconfiados que os outros brasileiros, pelo fato de viverem entre montanhas e nunca saberem bem o que pode vir do outro lado. Morar entre montanhas é diferente de morar no litoral e certamente isso tem um impacto na cultura local, na vida das pessoas.

É neste sentido que digo que somos “habitados” pelas coisas que comemos, olhamos, escutamos. Faz sentido a frase de que somos transformados de algum modo naquilo que comemos. Da mesma forma que também faz muito sentido em dizer que somos transformados naquilo que ouvimos.

Imaginem você uma criança crescer ouvindo que ela é burra, feia, chata, ou cara do papai. Algo disso tudo ela vai tomar para si ao internalizar essa escuta e essa paisagem. É justamente por isso, que precisamos ser zelosos com as situações que vamos expor nossas crianças.

Uma pergunta que me ajuda muito a pensar se eu devo ou não apresentar algo para uma criança é imaginar em que ela poderia se transformar ou ouvir, ver, comer tal coisa a ser apresentada. É obvio que, não vamos ser neuróticos (muito acentuados, seremos só um pouquinho mesmo!) com relação ao que nossas crianças veem, comem e escutam.

Mas também não podemos ser ingênuos em negar que as situações pelas quais estamos colocando aquela criança não a influenciará em nada. Precisa de zelo, muito zelo, neste processo. A criança tende a absorver muito mais coisas que nós. É como se o filtro delas fosse fino e permitisse passar mais ruídos que os nossos.

Essa situação transformaria meu filho/a em que?

Essa pergunta é uma ótima dica para discernirmos o que será melhor em sua alimentação, formação cultural, enfim, em sua educação em sentido geral.Enfim, seu filho não é um brinquedo de plástico e inatingível. Ele, como nós, é de carne porosa…

Como em educação não temos receita, perguntar é um ótimo caminho para se achar o melhor.

Na convivência não existe play, pause e off!

Front view of two boys (6-7, 8-9) playing Video Games

 escrito por Maria Beatriz Vasconcelos, pedagoga *

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“Eu descobri que as coisas boas da vida são de graça, não custam nada…”.
(Paula Santisteban e Eduardo Bologna)

Quero inaugurar a coluna trazendo algumas inquietações de uma professora preocupada com o modo de relações que são estabelecidas no convívio de nossas crianças.

A escola é o grupo social que a criança passa a participar formalmente posterior à família, que até então assumia todas as instâncias de formação e condução. Ela se torna um espaço privilegiado para o despertar do convívio social mais amplo e o desenvolvimento de muitas habilidades. Dentre todas elas destaco hoje o exercício da convivência, do aprender a ser “humano” em conjunto e assim construir várias possibilidades de crescimento em sociedade.

A partir deste momento na vida de uma criança, em que passa a freqüentar diariamente um espaço maior de convívio, muitos desafios são postos a todos os sujeitos envolvidos neste processo: famílias, professores e estudantes. Nesta prosa vou me ater ao desafio que acredito ser um dos mais importantes atualmente: o espaço tempo de construção da vida coletiva. Para a criança a escola torna-se o principal lugar da possibilidade de efetivação desta construção.

Neste sentido, muitas perguntas nos inquietam: quais as relações que nossas crianças estão estabelecendo no percurso de um crescimento saudável, pautado em uma socialização paciente e capaz de escutar, perceber o outro e aprender? Esta infância que hoje já manuseia aparelhos eletrônicos desde a mais tenra idade também está sendo estimulada e orientada para o convívio social? Será que elas percebem que o desafio da convivência não é simples como manusear um controle remoto, mouse ou manete de vídeo game?

Tem sido comum as queixas entre professores e professoras quanto às crianças chegarem à escola e ou frequentarem este espaço sem preparo para uma convivência coletiva. Meninos e meninas que fazem valer suas vontades diante de propostas para todos, ansiosos para falar, sem quietude para escutar, com dificuldade em esperar a vez e agitados durante todas as vivências na escola, até mesmo durante o momento da alimentação.

Tudo isto me faz refletir acerca do modo de vida que nossas crianças estão vivenciando e construindo em suas relações cotidianas. A cada família que converso escuto relatos de que boa parte do dia dos seus filhos tem sido ocupada com uma agenda cheia e por vários tipos de tecnologia digital, sem limite e equilíbrio no tempo de utilização. Isto me preocupa, pois sabemos o quanto as respostas dadas pelos aparelhos eletrônicos são imediatas… já na convivência coletiva isto nem sempre acontece. É preciso ser capaz de ser paciente, esperar e escutar ao convivermos em um grupo, para além do aspecto da discussão acerca da disciplina. Esta capacidade de se colocar em um grupo com tranquilidade e quietude é construída em diversas vivências que a criança participa. Aqui estou tratando da formação de um sujeito capaz de conviver socialmente e aprender diante do desafio que é perceber que assim como ele os outros também merecem atenção, escuta e participação.

Observo que muitos estudantes que apresentam dificuldades nas relações com os demais (paciência, escuta, etc), convivem diariamente com o uso excessivo dos aparelhos eletrônicos, comem ao mesmo tempo em que assistem TV e se distraem com outros objetos, sem dar um “pause”. Ao apreciarem uma leitura demonstram ansiedade pelo término e, se pudessem, usariam um controle remoto para controlar várias ações do dia – adiantar, voltar, pausar, pular.

Imagino que ao ler tudo isto a pergunta que fica é: Meu filho tem agido assim? E ai, o que fazer?

A opção que hoje me parece ser mais coerente com o aprendizado da convivência envolve uma escolha crucial: a urgência em priorizarmos a construção de outro ritmo nas relações em todas as dimensões. Vivemos o tempo do instantâneo, do imediato e isto reflete diretamente no desenvolvimento das crianças. A rotina de compromissos e o uso excessivo de tecnologias digitais parece estar substituindo vivências importantes nesta etapa de crescimento.

Cabe-nos investigar como está o tempo do ócio, da brincadeira, dos jogos na vida das nossas crianças. Estas práticas que deveriam ser privilegiadas estão sendo deixadas de lado. Através destas, poderíamos possibilitar estímulos e incentivos à percepção de que tudo envolve processo, principalmente a convivência no coletivo.

Precisamos redirecionar o nosso olhar e nossas ações em busca de um novo ritmo de organização e interação social. A escola reflete o que a sociedade e a época apresentam. E já sabemos que o momento é desafiador. Devemos então começar uma forte parceria para incluirmos práticas simples, mas grandes em significados no dia-a-dia das crianças. Experimentar atividades que oferecem a percepção do processo e a construção da paciência pode ser “… de graça, não custam nada” como nos diz esta linda canção.

Plantar, cozinhar, apreciar a arte em suas diversas linguagens, caminhar, criar algo novo… BRINCAR!!!! Tudo isto certamente envolve outra temporalidade e nossas crianças poderão crescer se relacionando melhor coletivamente, sabendo esperar e percebendo que tudo tem um tempo próprio e que a convivência no coletivo não se dá com auxílio de play, pause e off!

(Créditos da ilustração: retirada do Google imagens / Image by Mike Kemp/Tetra Images/Corbis)

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TEXTO ESCRITO PELA COLABORADORA:

Maria Beatriz  Vasconcelos, pedagoga, especialista em Educação Infantil. Atua como Professora Alfabetizadora na rede pública e privada em Belo Horizonte. Possui experiência como consultora educacional em formações docentes no segmento da Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.

Contatos:  mariabeatrizrn@hotmail.com / (31) 9480-4317

Comunicação e motivação – Post 2: como motivar a criança

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“Somos todos geniais. Mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará sua vida inteira acreditando ser estúpido”. (Albert Einstein)

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”.  (Freud)

No post anterior, comentei com vocês como às vezes nós esperamos que a situação mude, mas não mudamos nossas atitudes perante a situação. Assim, insistimos em agir de uma determinada forma que achamos que vai dar resultado, mesmo que a realidade esteja nos mostrando que nada está mudando.

Percebi isso em muitos atendimentos nos quais observava algumas atitudes adultas que não promoviam nenhuma motivação para a criança mudar seu comportamento. Taí a nossa palavra-chave.

Alguns pais relatam um determinado comportamento inadequado e repetitivo da criança – birras, desobediência, agressividade – e tentam corrigi-los com uma constante repreensão, críticas e punição. Não foram poucas as vezes em que me deparei com adultos que já não elogiavam os filhos e nem mesmo descrevia nenhum de seus aspectos positivos. Tudo que eu ouvia eram palavras negativas, às vezes com raiva, cansaço, irritação – o que é totalmente compreensível, porque, como eu disse no post anterior, a gente sabe que se trata de um erro tentando acertar. Isso acontece com todos nós.

Mas para compreendermos como as palavras negativas influenciam na atitude da criança, tornando-a desmotivada a agir da forma adequada, e como uma comunicação positiva serve de estímulo aos comportamentos desejados, costumo fazer uma analogia com um ambiente de trabalho adulto.

Suponha que seu patrão pediu-lhe para realizar uma nova tarefa, e ensinou-lhe como fazer, passo a passo. Na primeira vez você fez rápido, de forma desleixada e equivocada, e apresentou a tarefa realizada a ele. Ele criticou o seu comportamento e o trabalho feito, apontando todos os defeitos que carregava e afirmando que você era incapaz. Então pediu, de forma ríspida, que fizesse novamente e corretamente, ou receberia uma punição. Você, desta vez, com medo de ser criticado e punido, fez o trabalho com mais cuidado e tentando prestar atenção aos pontos importantes. Apresentou a tarefa ao seu patrão, que criticou os erros que ainda haviam sido cometidos e, sem observar o esforço que você dedicou, aplicou-lhe a punição e ainda lhe deu mais trabalhos, completando que duvidava que você desse conta. Você agora se esforça e tenta fazer da melhor forma possível, mas o patrão já espera que você vá apresentar errado, e a todo momento critica-o e  duvida da sua capacidade, dizendo que você nunca faz nada corretamente e não consegue cumprir ordens. Novamente, ao entregar a tarefa ao patrão, ele só enxerga os defeitos, criticando-os e punindo-o, e nem percebe a sua dedicação e os acertos que você conseguiu obter naquela tarefa. Em determinado momento, aquele ciclo te deixa cansado, e você, sabendo que o patrão só vai criticá-lo e nunca vai enxergar seus pontos positivos, desiste de fazer a tarefa bem-feita e volta a fazer de forma desleixada – afinal, é isso que ele espera mesmo de você (e também porque você já está tão irritado que passou a “pirraçar” o seu patrão).

Suponhamos agora essa mesma situação, diante de um patrão com outra atitude. Ao receber o seu primeiro trabalho realizado de forma desleixada, ele chama a sua atenção para os pontos negativos mas ressalta os positivos, dizendo que sabe que você é capaz de muito mais do que aquilo. Assim, pede-lhe para fazer novamente o trabalho, se oferecendo para sanar qualquer dúvida. Você realiza novamente, um pouco contrariado, mas tentando não cometer os mesmos erros para não desapontar o patrão. Ao apresentar novamente a tarefa, seu patrão elogia-o, dizendo como você melhorou da última vez para agora, e que, apesar de ainda ter alguns erros no trabalho, gostou de saber que você se esforçou e que mostrou que pode ser capaz. Ele, depois de ressaltar seus aspectos positivos, lhe aponta onde ainda existem erros e como você pode corrigi-los, usando suas habilidades. Você gostou de receber aqueles elogios e conquistar a confiança do patrão, então agora procura seguir suas coordenadas e realizar a tarefa conforme foi pedido. Ao apresentar novamente, o patrão elogia-o pelo cumprimento e pela constante evolução, parabeniza-o pelo esforço e pela tarefa bem cumprida, e ao enxergar um pequeno engano irrelevante cometido, ignora-o para não desmotivá-lo. Porém, ao pedir-lhe a próxima tarefa, o patrão fica atento se esse engano está sendo cometido novamente, enquanto você está desenvolvendo o trabalho; e ao perceber que você vai se equivocar desta vez, orienta-o sobre qual o caminho melhor a seguir naquele momento. Você sente que está agradando ao patrão, que ele está prestando atenção em você e te dá valor; dessa vez, faz seu trabalho com bastante atenção e cuidado, da forma que ele lhe orientou. Ao apresentar ao patrão, este novamente o elogia e ainda lhe dá aquele dia de folga que você estava querendo, pois você conseguiu adiantar seus trabalhos e se superou. A partir desse dia, você ficou muito mais motivado a trabalhar e cumprir as tarefas, mostrando todas as suas habilidades.

Claro que não estou “comparando” uma relação de trabalho a uma relação parental; foi apenas uma analogia grosseira para percebermos que certos comportamentos são próprios do ser humano, adulto ou criança, e não exclusivamente do universo infantil. Assim, por exemplo, um elogio (SINCERO, ESPONTÂNEO E VERDADEIRO!) pode ser força motivadora de qualquer pessoa. E às vezes, se pararmos pra refletir que aquilo poderia ser a minha realidade, talvez possamos compreender melhor como a criança se sente em uma situação semelhante.

Invistamos, pois, em observar mais os aspectos positivos de um comportamento e ressaltá-los. E, mesmo que os aspectos negativos ou inadequados estejam muitos fortes e resistentes, tomemos o cuidado de não deixarmos que isso impeça-nos de enxergar a totalidade da realidade daquela criança. (Que fique bem claro: isso não é viver como “Poliana” nem “ver o mundo cor-de-rosa”, não. Simplesmente é importante que a correção venha acompanhada de reflexão e de motivação).

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(Créditos das fotos: retirada do Google Imagens)

 

Comunicação e motivação – Post 1: Sobre errar, aprender e mudar

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“É insanidade fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes”. (Albert Einstein)

“Alguém que nunca cometeu erros, nunca tratou de fazer algo novo”. (Albert Einstein)

Imaginem vocês que eu tenho em mãos uma garrafa de água, fechada com uma tampa. Eu quero abrir essa garrafa, mas não sei como funciona seu mecanismo de abertura. Então eu tento girar a tampa no sentido contrário à sua abertura, fechando-a ainda mais. Estou vendo que ela não está abrindo, mas eu continuo acreditando que é desse jeito que eu vou abrir a garrafa. Assim, junto todo meu esforço e continuo girando a tampa nesse sentido. E passam-se horas nessa tentativa, mas a garrafa não abre.

Qual seria a atitude mais razoável que eu teria de tomar, diante dessa evidência que se me mostra?

Bom, imagino que vocês tenham respondido “tentar outra forma de abrir a garrafa, já que você percebeu que assim você não conseguirá”.

Pois é. Às vezes passamos muito tempo insistindo numa tentativa de fazer as coisas mudarem, mas agindo sempre da mesma forma.

Vejam bem: reconhecer que era preciso mudar de atitude não significa que eu não estivesse tentando abrir a garrafa na melhor das intenções, com esforço e dedicação. Eu estava colocando toda a minha energia e estava fazendo o melhor que eu podia, naquilo que eu achava que era correto. Assim como tantos pais ou educadores fazem com suas crianças.

Mas em determinado momento, preciso humildemente perceber que, se não está funcionando daquele jeito, é porque o jeito que estou tentando pode estar equivocado.

Falamos muito sobre como as crianças aprendem com os erros, mas é bom lembrar que os erros são e serão cometidos por todos nós também, adultos. Inevitavelmente. E é através dos erros que vamos tentando abrir novos caminhos na educação.

Quantas vezes não ouvi pais lamentando que “sempre coloca a criança de castigo, mas ela não melhora”, “sempre faz tudo o que ela quer, mas ela não lhe obedece”, “sempre fala pra ela que é uma malcriada, mas ela não ouve”. Vamos refletir: se depois de um longo tempo de tentativa de mudança do comportamento da criança através de determinadas atitudes, percebemos que a criança não muda, ou até piora, é preciso parar e verificar se não estamos tentando abrir a garrafa no sentido contrário. E aí, tentar uma nova forma de abri-la.

Nem sempre a garrafa pode abrir apenas girando a tampa para o outro lado – isso também pode não dar certo. É preciso entender que, às vezes, tentarei várias formas de abrir aquele recipiente, mas no final descobrirei que aquela tampa nem abre girando, ou que a tampa está do outro lado, ou que a garrafa possui abertura vertical. Algumas, só com abridor; outras, só saca-rolhas. Para isso, é preciso estarmos bem atentos, observar bastante “nossa garrafa” e prestar bastante atenção no que é que a situação está me solicitando.

Reconhecer que a realidade está nos pedindo outra coisa é um primeiro passo para a mudança (da nossa atitude e da realidade que eu quero mudar). A partir do momento em que percebemos que nossa ação está caminhando num sentido em que nada muda, é hora de refletirmos, observarmos e tentar girar a tampa da garrafa em outras direções.

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No próximo post, dando continuidade a este assunto, vou comentar situações difíceis em que às vezes, insistimos em agir da mesma maneira, e quais resultados podem decorrer disto.

(Créditos das imagens: Banco de imagens do Google, e https://365nuncas.wordpress.com)

Para educar é preciso ser aprendiz!

Ainda continuando nosso papo sobre o nascimento (veja os textos anteriores AQUI e AQUI), queria trazer para vocês um trecho lindo de um livro bem complexo, para quem não é da filosofia, mas descreve lindamente o significado que uma criança traz ao mundo ao nascer. Maurice Merleau-Ponty, nosso amigo e filósofo francês, na sua obra maior, Fenomenologia da Percepção, escreve assim:

“Na casa onde nasce uma criança, todos os objetos mudam de sentido, eles se põem a esperar dela um tratamento ainda indeterminado, alguém diferente e alguém a mais está ali, uma nova história, breve ou longa, acaba de ser fundada, um novo registro está aberto.” (Fenomenologia da Percepção p. 545-546)

Este recorte reafirma o quão significativo é para a história da humanidade o nascimento de uma criança. O mundo pode ser interpretado de uma maneira nova quando um recém-nascido chega ao mundo.

Estou insistindo nessa tecla da “novidade sobre o mundo” que o nascimento traz para pensarmos bem o sentido da educação. Afinal, se o recém-nascido inaugura um mundo novo em um mundo velho, o que significa educar?

Aqui estará o risco, de um lado, seguirmos as receitas prontas e dadas obrigando a criança a se enquadrar em uma forma já determinada, por outro lado, a possibilidade de viver o risco e a insegurança que o novo carrega. A educação vai se firmar nessa tensão constante em assegurar que um novo jeito de se viver chegue ao mundo e, ao mesmo tempo, inserir esta nova vida na tradição na qual ela surge.

Por isso, é difícil estabelecer um modelo único de educação. O que podemos dizer são princípios que podem nos ajudar a viver essa tensão. Tais princípios como o cuidado, o diálogo, o respeito profundo a individualidade, a responsabilidade, a temperança, o carinho, nos ajudam a compreender por onde passa a educação. Aqui, estamos pensando a educação como o processo pelo qual favorecemos o desenvolvimento integral da vida humana que acaba de surgir no mundo, nada mais que isso.

Acompanhar a educação de alguém não exige muitos conhecimentos práticos ou teóricos, mas sabedoria. Isso mesmo, as pessoas sábias são as melhores educadoras. Algo raro hoje em dia. Em educação há muitos especialistas, técnicos, consultores, mas gente sábia anda em falta.

Quando digo sabedoria quero dizer aquela capacidade adquirida ou inata que as pessoas acumulam ao longo do tempo a medida que souberam saborear a vida, ou seja, tiveram um longo aprendizado através da escuta atenta da própria vida. Sabe aquelas pessoas simples que pouco estudo tiveram mas pronunciam palavras sábias? É esse o tipo de sabedoria que nos falta.

Essa sabedoria é uma posição de mundo que assumimos, geralmente baseada no aprendizado constante, na humildade de assumir que em matéria de vida humana somos sempre aprendizes. Um bom educador é aquele que evoca a postura sábia do jargão de Sócrates, “sei que nada sei”. O segredo para ser um bom educador é ser sempre aprendiz.

Fernando Pessoa também nos ajuda a compreender melhor essa sabedoria ao nos instigar com sua célebre poesia que diz, “sinto-me nascido a cada momento/ para a eterna novidade do mundo”. Ele evoca o paradoxo de nascer a cada momento para o eterno. Funde o efêmero e o eterno na experiência do viver. Essa mistura de opostos é características dos sábios educadores. Educam a partir da abertura que possuem para o outro e para o mundo.

O nascimento é a celebração do novo no eterno. O novo que vêm para re-significar as coisas mais banais do cotidiano e, ao mesmo tempo, dar continuidade a raça humana que se alastra desde alguns bilhões de anos no Planeta Terra. Este novo, para ser bem educado, exige de nós presença amiga, capacidade de escuta, discernimento e muuuuito, muuuuito carinho.

Estes gestos permanecem eternos em nossas vidas…. quais gestos deixaremos eternizados em nossos filhos? Para nos ajudar nisso, mais poesia! Salve Drummond!

Eterno

Carlos Drummond de Andrade

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e
[nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como
[uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

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(As fotos deste post foram retiradas de banco de imagem do Google).

Respeite minha dor! Falando de morte com a criança

“Salgueiro chorão com lágrimas escorrendo,
Por que você chora e fica gemendo?
Será porque ele lhe deixou um dia?
Será porque ficar aqui não mais podia?
Em seus galhos ele se balançava,
E ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava,
Em sua sombra abrigo ele encontrou,
Imagina que seu sorriso jamais se acabou.
Salgueiro chorão, pare de chorar,
Há algo que poderá lhe consolar, 
Acha que a morte para sempre os separou?
Mas em seu coração pra sempre ficou….”

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No filme “Meu primeiro amor”, a personagem mirim Vada recita na sua aula de literatura o poema “Salgueiro Chorão” após ter de enfrentar a morte do seu melhor amigo, Thomas.

Parece clichê repetir que a morte é parte da vida, mas uma notícia de morte inevitavelmente nos toca, porque “somos parte integrante da humanidade”, como escreveu o poeta inglês John Donne. Portanto, quando se trata de uma pessoa querida, amada, não é mesmo fácil para nenhum de nós. Enfrentar o luto é um processo difícil em todas as idades de um ser humano, mas pode ser ainda mais difícil para uma criança, que sente e compreende subjetivamente a duração do tempo de uma forma diferente da do adulto.

Abordar a morte com a criança ainda deixa muita gente desconcertada, sem saber como fazê-lo. Muitos recorrem a eufemismos como “dormiu para sempre”, “virou estrelinha”, “viajou pra sempre”, não explicando na realidade o que aconteceu. Isso às vezes mais confunde do que ajuda – principalmente para as crianças mais novas, antes dos 6 anos, por já possuírem uma dificuldade em compreender a questão da irreversibilidade da morte. Desta forma, essas abordagens podem dar a algumas crianças a impressão de que o ente querido “desapareceu”, “evaporou”, “foi embora e não voltou”, gerando fantasias em sua mente, como de resgatá-lo ou ir ao seu encontro. No futuro, pode até dificultá-las a lidar com o luto de uma maneira equilibrada, pois em momentos oportunos não lhe foi apresentada a morte de uma forma esclarecedora.

Ao enfrentar o luto, uma criança pequena, que decerto ainda não sabe direito nomear seus sentimentos, pode reprimir suas emoções ou até mesmo expressá-las através de outros comportamentos ou sintomas (mecanismos de defesa), como a agressividade, a hostilidade, a negação, o isolamento social e às vezes até o sentimento de culpa. A fim de que essa perda vá sendo bem elaborada na estrutura psíquica das crianças é que se torna importante falar e ouvir falar da morte abertamente com elas, assim como mostrar que seu sofrimento é digno de respeito.

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O leãozinho Simba se viu desamparado e culpado após a morte do seu pai, Mustafa, no filme infantil “O Rei Leão”.

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A personagem Vada primeiramente teve uma reação de negação ao saber da morte do seu amigo Thomas, no filme “Meu Primeiro Amor”.

No meu último trabalho com atendimento em saúde mental infantil, num serviço público, eu cheguei em um momento bastante difícil. O psicólogo infantil que trabalhava lá anteriormente havia acabado de falecer em um acidente. Havíamos mais de cem pacientes, crianças e adolescentes, e claro que foi um triste momento de luto a ser vivido, já que a grande maioria possuía um vínculo longo e forte com o profissional. Após darmos a notícia aos pais (que também receberam com muito pesar e tristeza), recomendamos a todos eles que já preparassem e falassem a verdade com as crianças em casa, sem mentiras nem omissões, sobre a morte do então psicólogo delas. E foi preciso realmente muito cuidado e respeito para abordá-los sobre isso, principalmente por se tratar de crianças e jovens que já estavam no curso de um tratamento de um sofrimento psíquico – muitas inclusive que já vinham enfrentando outros processos de luto. 

É importante acolher todas as emoções e sentimentos da criança, e fazê-la perceber que é natural que sinta dor, tristeza, saudade, às vezes até mesmo raiva, naquele momento. Muitas crianças não conseguem falar sobre o que se passa com elas – mas não falar não significa que não estão sentindo. Muitas delas não conseguem nem mesmo chorar por um tempo. Fundamental ouvir o que as crianças têm a dizer, até mesmo encorajá-las a fazerem-no – ou dizer a elas que podem tentar se expressar através de desenhos. Deixem-nas brincar também, pois através da simbolização alçada na fantasia, algumas ansiedades podem ser aliviadas. Também não esconda da criança os seus próprios sentimentos e a sua própria dor. Isso tudo pode ir ajudando na elaboração do luto infantil.

A criança, como qualquer um de nós, pode enfrentar no curso de sua infância mortes trágicas ou mortes “esperadas”, como de uma pessoa em doença terminal; pode ser a morte de um bichinho de estimação, de um parente ou familiar, de um amigo ou amiga, do vovô ou da vovó, de um professor ou professora, e na pior das hipóteses, de um dos seus genitores ou principal cuidador/tutor – a figura em quem, geralmente, naquele momento, está se baseando como modelo para construir sua identidade e constituir sua personalidade. Em todos os casos, a criança precisa sentir que não ficou sozinha nesse momento de perda e ser apoiada desde o início, de preferência por alguém de confiança e de seu vínculo, e que possa lhe devotar afeto, carinho e cuidado durante o tempo necessário. É bom também que a pessoa que lhe dará a difícil notícia da morte seja essa mesma pessoa que estará a lhe acompanhar no processo do luto.

Muitos especialistas defendem a ideia de que seja facultado à criança (principalmente acima dos três anos) a escolha de participar dos ritos culturais de despedida (como funerais e enterros). Para eles, é bom explicar à criança do que se trata aquele momento e perguntar se ela deseja participar, mas nunca impor-lhe a vontade (nem de ir ou de não ir). Assim como elas participariam de outros ritos marcadores do tempo na cultura, como casamentos e aniversários, a participação nos rituais fúnebres seria também uma forma de ter-lhes preservado e respeitado o seu direito de se “despedir” simbolicamente da pessoa que amam, e assim fazendo da morte um evento menos traumático. Obviamente que, como tudo tem sua exceção, funerais derivados de grandes tragédias talvez não sejam realmente adequados para que crianças muito pequenas presenciem, dado que, em muitas vezes, muitos dos próprios adultos em luto costumam mostrar grande desespero e revolta nessas situações. Desta forma, no final o que conta é que o responsável pela criança esteja sensível a perceber a nuance da situação.

Para irem aprendendo a lidar com o tema do ciclo da vida, as crianças já podem ir sendo educadas através de atividades lúdicas – como explicar a elas sobre a vida das plantinhas e dos animais, fazendo com que elas se envolvam através de um momento de acompanhamento e convivência (a ideia de plantar e cuidar do feijãozinho no algodão, por exemplo). A arte também é sempre uma bela maneira de se tratar temas existenciais como a morte com as crianças, pois a arte ativa a sensibilidade, desperta para os sentidos e transcende o real. Livros, obras, filmes, músicas, teatros, contação de histórias: todos são interlocutores que podem ajudar a abordar o tema de morte até mesmo com bom humor. 

Dicas de alguns livros infantis sobre o tema:

“Começo, meio e fim” (Frei Betto)

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“Menina Nina” (Ziraldo)

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“A montanha encantada dos Gansos Selvagens” (Rubem Alves)

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“Quando os dinossauros morrem” (M. Brown)

dinossauros morrem

“O círculo do destino” (Raja Mohanty e Sirish Rao)

circulo do destino

“A história de uma folha” (Léo Buscaglia)

historia de uma folha

“O pato, a morte e a tulipa” (Wolf Elrbruch)

pato morte tulipa

 

Vó Nana (Margaret Wild)

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A Poltrona Vazia (Sandra Saruê e Marcelo Boffa)

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Tempos de Vida (Bryan Mellonie e Robert Ingpen)

tempos de vida

A Velhinha Que Dava Nome às Coisas (Cynthia Rylant)

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A mulher que matou os peixes (Clarice Lispector)

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O guarda-chuva do vovô (Carolina Moreyra)

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Referência de leitura extra pra vocês: Luto na infância e as suas conseqüências no desenvolvimento psicológico. Louzette, F.L. e Gatti, A. L.  2007. 

Momento desabafo: Enquanto eu procurava as imagens pra ilustrar o post, acabei assistindo novamente um pedacinho do filme “Meu Primeiro Amor” (o momento do funeral). Pensem se não morri de chorar aqui novamente, pela enésima vez? rs

O nascimento começa com um corte…

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Debaixo d’água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar

Arnaldo Antunes

Quero continuar a dizer sobre a beleza do nascimento (o texto anterior está aqui) e como ele inaugura uma novidade no mundo.

Podemos dizer que a marca do nascimento é o corte no cordão umbilical. A experiência de nascer para o mundo começa na separação, um corpo que se separa de outro corpo. Depois da ruptura, vamos nos relacionar com o corpo que nos gerou, mas não de dentro dele e sim por fora. Esse simples deslocamento de posição -dentro para fora – muda tudo em nossa vida. Aquilo que era um, agora se apresenta como dois. no entanto essa separação efetiva que acontece no nascimento não acontece automaticamente no decorrer da vida. Mãe e filho podem continuar fundidos afetivamente.

Nascer é separar-se da mãe para adentrar no mundo. É neste sentido que podemos falar que quem nasce traz uma novidade ao mundo. Os olhinhos da mãe voltados para o bebê e dele para com a mãe, concretizam esse acordo silencioso do nascimento, vejo o rosto de quem amo.

Só vemos o rosto de quem “está fora” de mim, o meu próprio rosto não consigo ver. A separação é fundamental para pensarmos em educação. (Mais adiante veremos o porquê!)

Quando um bebê começa a ser gestado já existe um mundo de coisas, ideias, situações bem concretas para ele viver. Se muitas coisas já estão dadas e definidas, como então o nascimento é a eterna novidade do mundo?

A resposta para isso, talvez, nos exigisse um tratado, mas como não quero divagar nas concepções teóricas da filosofia vou tentar ser bem simples. Para deixar que o novo venha ao mundo é preciso permitir, a ‘pessoa nova’ que chega ao mundo, experimentar o mundo do seu lugar. Isso mesmo, precisamos deixar a criança ser criança, o bebê ser bebê,. É simples, basta favorecer que este ser que nasceu desenvolva ao seu modo. Desta forma, nós passamos a aprender com ele o seu modo de ser.

Não, eu não quero dizer que devo deixar a criança a fazer o que ela quer. O que quero dizer é que, existe no colo de um adulto um ser que não é o mesmo de quem o carrega, por exemplo, o mesmo ser da mãe, não é mesmo ser do pai, não é o mesmo ser da vó, ou de quem quer que seja. Tampouco é um ser híbrido feito das metades do pai e da mãe cujo resultado da soma é o que carregamos. Não, um recém-nascido é como nós, completo e desamparado!

Quero dizer com isso que, dar a luz a alguém é possibilitar a vida desse alguém no mundo. Quero dizer, o bebê é uma outra pessoa que esta diante de você. Este é um princípio básico para a boa vida dos envolvidos na educação.

Pode parecer algo óbvio mas reconhecer que este outro é diferente de mim nem sempre é fácil. Tal reconhecimento é um processo, que para muitos, leva uma vida toda. Essa pseudo ‘fusão’ que se vive nas fases iniciais do nascimento é normal e pode até fazer bem por algum tempo, mas a longo prazo é prejudicial para as partes envolvidas.

Cortar o cordão umbilical é necessário, não somente no parto, mas metaforicamente dizendo da vida. Reconhecer a integralidade do outro que se apresenta diante de meu colo é importante para um crescimento saudável e maduro do desenvolvimento humano.

Caso contrário, corremos o sério risco de aniquilarmos a experiência deste ser que chega em detrimento    do medo da separação.

Contudo, para conseguirmos reconhecer essa pessoa que se apresenta diante de nós como outra pessoa (e não uma propriedade minha) é fundamental termos feito essa experiência de ruptura com estruturas que não nos permitem ser nós mesmos.

Sei que há inúmeras pessoas que, mesmo adultas e tendo filhos, não conseguiram viver esta ruptura com o universão de proteção paterno e materno. Certamente, a sua ruptura para com o mundo é de suma importância para que possibilite ao seu filho viver para o mundo.

Bem.. ainda vamos conversar mais sobre isso! Caso eu não tenha me expressado bem, sei que você pode entender tudo que falei se escutar essa música aqui.

Não é por acaso que a vida deu jeito de fazer com que todos os animais soubessem o melhor modo de romper o cordão umbilical… Imaginem se vivêssemos unidos a ele sempre. Impossível viver! Afinal, é preciso respirar!!

 

(Créditos da foto deste post: restirada de banco de imagens do Google)