O lanche escolar e a construção de um bom hábito alimentar

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escrito por Maria Beatriz Vasconcelos, pedagoga*

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“Direito a um bom início

Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro. ”
(Rubem Alves – Direitos naturais das crianças)

O contato com uma mãe muito consciente em vários aspectos da educação dos seus filhos e muito parceira com a escola onde seu menino de seis anos estuda, me provocou a escrever o tema deste mês: o lanche escolar. Este aspecto na rotina das famílias e da escola precisa ser repensado e ressignificado. Ela me relatou uma situação que deve ser refletida e problematizada quanto ao desafio de propor uma alimentação saudável para as crianças.

A situação é a seguinte: Ela procura conduzir a alimentação do filho de uma maneira mais saudável. Mesmo com a dificuldade de tempo da família ela tenta preparar um lanche selecionando alimentos mais naturais, menos industrializados e que favorecem um crescimento sadio. Entretanto, a escola que o filho estuda oferece, na lanchonete, lanches como refrigerante, salgados fritos, chips e guloseimas. Ou seja, a família convive com o desafio maior de convencer a criança diariamente a optar pelo lanche saudável. Se a escola tivesse a mesma proposta tudo seria diferente e a condução da família estaria sendo reforçada. A escola estaria cumprindo o seu papel: contribuindo para a educação da criança no seu desenvolvimento integral.

Contudo, não é isto que vem acontecendo. Muitas escolas negligenciam este aspecto da formação da criança e optam por explorar também este setor em prol de lucros. Mesmo na rede pública, com a criação das vendinhas nos horários de recreio isto é muito comum. Entretanto, já existe uma resolução da Secretaria de Educação de Minas Gerais de 2010, baseada na lei estadual 18.372/2009 que proíbe a venda e distribuição gratuita de alimentos muito calóricos, tais como frituras, doces, salgadinhos, picolés, refrigerantes e outros.

Atualmente vários estados no Brasil possuem uma legislação específica que exige das instituições de ensino a oferta de merendas saudáveis. Algumas escolas que ainda não cumprem a legislação argumentam aspectos financeiros quanto a contratos firmados com lanchonetes. Todavia, isto não pode ser uma justificativa aceitável para continuarem oferecendo lanches que “deseducam”, ou seja, não contribuem para a formação de um bom hábito alimentar.

Felizmente, já existem muitas escolas que cumprem esta legislação. Aí o desafio é outro… famílias que não conseguem ainda privilegiar uma proposta mais natural na alimentação dos filhos e optam pelo mais fácil: o produto industrializado, com excesso de sódio, açúcar, gordura saturada, conservantes e muitos outros ingredientes que não fortalecem um crescimento sadio. A dificuldade então passa a ser da escola em insistir e alertar às famílias, principalmente na Educação Infantil, de que nesta fase do desenvolvimento de uma criança a educação do paladar é super importante para a relação que ela terá com a comida para o resto da sua vida.

A maior parte destes alimentos, com alto teor de açúcar, gordura e sódio, quando apresentados em excesso durante a infância contribuem para criar o vício no paladar em produtos industrializados e a resistência em alimentos naturais que certamente o sabor não ressalta tanto açúcar e gordura. É neste tipo de consumo que observamos a resistência dos menores em experimentar e apreciar sabores de frutas, verduras e legumes. Boa parte hoje das crianças, cujo consumo é repleto de biscoito recheado, salgadinhos, refrigerante e outros, apresentam extrema resistência nas refeições adequadas. Me parece, que é no mínimo difícil, uma pessoa após seus primeiros anos de vida ter “viciado” nestes alimentos construir um hábito alimentar adequado à sua saúde.

Este contexto, “fast-food”, associado à problemática da publicidade infantil nas embalagens de lanches, é tão desafiador que muitas famílias acabam reforçando este consumo, por ser mais prático e rápido. Acabam comprando lanches industrializados, colocam na lancheira e pronto. Ou contratam a lanchonete da escola para fornecer o lanche que a criança quiser, em determinado valor, diariamente.

A situação é complicada, pois tanto as escolas quanto as famílias enfrentam este desafio em situações diferentes. No caso da mãe que citei no início do texto, a solução que talvez pensemos de imediato é da possibilidade de mudança de escola. Mas não é uma decisão simples, sempre envolve muitos outros aspectos pessoais da família que dificultam esta escolha. E, na verdade, esta seria a “solução” para esta família. E as outras que convivem naquele espaço? E a formação das outras crianças? Em muitos momentos precisamos enfrentar o problema para que a solução seja coletiva e beneficie a todos e não apenas a um. Neste caso a parceria entre a escola e família precisa caminhar na direção de algumas reflexões a cerca da alimentação em prol do crescimento dessas crianças.

A sugestão passa pela organização dos pais em apresentar a legislação para a escola, cobrar um posicionamento e apresentar o problema sempre que possível. Em momentos de reuniões de pais e outros encontros destacarem o desafio que vem enfrentando na educação da criança diante deste contexto. Por outro lado percebo que as escolas que possuem um programa de alimentação adequado já estão se mobilizando com diversas ações de sensibilização das famílias… Orientações em reuniões de pais, lanchonetes com alimentos mais saudáveis e até projetos que constroem o conhecimento da importância deste hábito de alimentação saudável.

Educar com amor é priorizar o “Direito a um bom início”, em todas as suas dimensões. Exige de nós encontrarmos formas mais plenas de garantir um desenvolvimento integral para as crianças e a alimentação é, de fato, o começo de todo o cuidado que elas necessitam e precisarão de condução ao longo de bons anos. Quer saber mais sobre o assunto? Se envolver com a discussão e propor mudanças em sua família e/ou na escola do seu filho? Acesse os sites:

– Movimento Infância livre de consumismo: http://milc.net.br/tag/alimentacao-saudavel/

– Rede Brasileira Infância e Consumo: http://rebrinc.com.br/

Maria - Foto para colunaTEXTO ESCRITO PELA COLABORADORA:

Maria Beatriz  Vasconcelos, pedagoga, especialista em Educação Infantil. Atua como Professora Alfabetizadora na rede pública e privada em Belo Horizonte. Possui experiência como consultora educacional em formações docentes no segmento da Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.

Contatos:  mariabeatrizrn@hotmail.com / (31) 9480-4317

Na convivência não existe play, pause e off!

Front view of two boys (6-7, 8-9) playing Video Games

 escrito por Maria Beatriz Vasconcelos, pedagoga *

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“Eu descobri que as coisas boas da vida são de graça, não custam nada…”.
(Paula Santisteban e Eduardo Bologna)

Quero inaugurar a coluna trazendo algumas inquietações de uma professora preocupada com o modo de relações que são estabelecidas no convívio de nossas crianças.

A escola é o grupo social que a criança passa a participar formalmente posterior à família, que até então assumia todas as instâncias de formação e condução. Ela se torna um espaço privilegiado para o despertar do convívio social mais amplo e o desenvolvimento de muitas habilidades. Dentre todas elas destaco hoje o exercício da convivência, do aprender a ser “humano” em conjunto e assim construir várias possibilidades de crescimento em sociedade.

A partir deste momento na vida de uma criança, em que passa a freqüentar diariamente um espaço maior de convívio, muitos desafios são postos a todos os sujeitos envolvidos neste processo: famílias, professores e estudantes. Nesta prosa vou me ater ao desafio que acredito ser um dos mais importantes atualmente: o espaço tempo de construção da vida coletiva. Para a criança a escola torna-se o principal lugar da possibilidade de efetivação desta construção.

Neste sentido, muitas perguntas nos inquietam: quais as relações que nossas crianças estão estabelecendo no percurso de um crescimento saudável, pautado em uma socialização paciente e capaz de escutar, perceber o outro e aprender? Esta infância que hoje já manuseia aparelhos eletrônicos desde a mais tenra idade também está sendo estimulada e orientada para o convívio social? Será que elas percebem que o desafio da convivência não é simples como manusear um controle remoto, mouse ou manete de vídeo game?

Tem sido comum as queixas entre professores e professoras quanto às crianças chegarem à escola e ou frequentarem este espaço sem preparo para uma convivência coletiva. Meninos e meninas que fazem valer suas vontades diante de propostas para todos, ansiosos para falar, sem quietude para escutar, com dificuldade em esperar a vez e agitados durante todas as vivências na escola, até mesmo durante o momento da alimentação.

Tudo isto me faz refletir acerca do modo de vida que nossas crianças estão vivenciando e construindo em suas relações cotidianas. A cada família que converso escuto relatos de que boa parte do dia dos seus filhos tem sido ocupada com uma agenda cheia e por vários tipos de tecnologia digital, sem limite e equilíbrio no tempo de utilização. Isto me preocupa, pois sabemos o quanto as respostas dadas pelos aparelhos eletrônicos são imediatas… já na convivência coletiva isto nem sempre acontece. É preciso ser capaz de ser paciente, esperar e escutar ao convivermos em um grupo, para além do aspecto da discussão acerca da disciplina. Esta capacidade de se colocar em um grupo com tranquilidade e quietude é construída em diversas vivências que a criança participa. Aqui estou tratando da formação de um sujeito capaz de conviver socialmente e aprender diante do desafio que é perceber que assim como ele os outros também merecem atenção, escuta e participação.

Observo que muitos estudantes que apresentam dificuldades nas relações com os demais (paciência, escuta, etc), convivem diariamente com o uso excessivo dos aparelhos eletrônicos, comem ao mesmo tempo em que assistem TV e se distraem com outros objetos, sem dar um “pause”. Ao apreciarem uma leitura demonstram ansiedade pelo término e, se pudessem, usariam um controle remoto para controlar várias ações do dia – adiantar, voltar, pausar, pular.

Imagino que ao ler tudo isto a pergunta que fica é: Meu filho tem agido assim? E ai, o que fazer?

A opção que hoje me parece ser mais coerente com o aprendizado da convivência envolve uma escolha crucial: a urgência em priorizarmos a construção de outro ritmo nas relações em todas as dimensões. Vivemos o tempo do instantâneo, do imediato e isto reflete diretamente no desenvolvimento das crianças. A rotina de compromissos e o uso excessivo de tecnologias digitais parece estar substituindo vivências importantes nesta etapa de crescimento.

Cabe-nos investigar como está o tempo do ócio, da brincadeira, dos jogos na vida das nossas crianças. Estas práticas que deveriam ser privilegiadas estão sendo deixadas de lado. Através destas, poderíamos possibilitar estímulos e incentivos à percepção de que tudo envolve processo, principalmente a convivência no coletivo.

Precisamos redirecionar o nosso olhar e nossas ações em busca de um novo ritmo de organização e interação social. A escola reflete o que a sociedade e a época apresentam. E já sabemos que o momento é desafiador. Devemos então começar uma forte parceria para incluirmos práticas simples, mas grandes em significados no dia-a-dia das crianças. Experimentar atividades que oferecem a percepção do processo e a construção da paciência pode ser “… de graça, não custam nada” como nos diz esta linda canção.

Plantar, cozinhar, apreciar a arte em suas diversas linguagens, caminhar, criar algo novo… BRINCAR!!!! Tudo isto certamente envolve outra temporalidade e nossas crianças poderão crescer se relacionando melhor coletivamente, sabendo esperar e percebendo que tudo tem um tempo próprio e que a convivência no coletivo não se dá com auxílio de play, pause e off!

(Créditos da ilustração: retirada do Google imagens / Image by Mike Kemp/Tetra Images/Corbis)

Maria - Foto para coluna

TEXTO ESCRITO PELA COLABORADORA:

Maria Beatriz  Vasconcelos, pedagoga, especialista em Educação Infantil. Atua como Professora Alfabetizadora na rede pública e privada em Belo Horizonte. Possui experiência como consultora educacional em formações docentes no segmento da Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.

Contatos:  mariabeatrizrn@hotmail.com / (31) 9480-4317