Comunicação e motivação – Post 2: como motivar a criança

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“Somos todos geniais. Mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará sua vida inteira acreditando ser estúpido”. (Albert Einstein)

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”.  (Freud)

No post anterior, comentei com vocês como às vezes nós esperamos que a situação mude, mas não mudamos nossas atitudes perante a situação. Assim, insistimos em agir de uma determinada forma que achamos que vai dar resultado, mesmo que a realidade esteja nos mostrando que nada está mudando.

Percebi isso em muitos atendimentos nos quais observava algumas atitudes adultas que não promoviam nenhuma motivação para a criança mudar seu comportamento. Taí a nossa palavra-chave.

Alguns pais relatam um determinado comportamento inadequado e repetitivo da criança – birras, desobediência, agressividade – e tentam corrigi-los com uma constante repreensão, críticas e punição. Não foram poucas as vezes em que me deparei com adultos que já não elogiavam os filhos e nem mesmo descrevia nenhum de seus aspectos positivos. Tudo que eu ouvia eram palavras negativas, às vezes com raiva, cansaço, irritação – o que é totalmente compreensível, porque, como eu disse no post anterior, a gente sabe que se trata de um erro tentando acertar. Isso acontece com todos nós.

Mas para compreendermos como as palavras negativas influenciam na atitude da criança, tornando-a desmotivada a agir da forma adequada, e como uma comunicação positiva serve de estímulo aos comportamentos desejados, costumo fazer uma analogia com um ambiente de trabalho adulto.

Suponha que seu patrão pediu-lhe para realizar uma nova tarefa, e ensinou-lhe como fazer, passo a passo. Na primeira vez você fez rápido, de forma desleixada e equivocada, e apresentou a tarefa realizada a ele. Ele criticou o seu comportamento e o trabalho feito, apontando todos os defeitos que carregava e afirmando que você era incapaz. Então pediu, de forma ríspida, que fizesse novamente e corretamente, ou receberia uma punição. Você, desta vez, com medo de ser criticado e punido, fez o trabalho com mais cuidado e tentando prestar atenção aos pontos importantes. Apresentou a tarefa ao seu patrão, que criticou os erros que ainda haviam sido cometidos e, sem observar o esforço que você dedicou, aplicou-lhe a punição e ainda lhe deu mais trabalhos, completando que duvidava que você desse conta. Você agora se esforça e tenta fazer da melhor forma possível, mas o patrão já espera que você vá apresentar errado, e a todo momento critica-o e  duvida da sua capacidade, dizendo que você nunca faz nada corretamente e não consegue cumprir ordens. Novamente, ao entregar a tarefa ao patrão, ele só enxerga os defeitos, criticando-os e punindo-o, e nem percebe a sua dedicação e os acertos que você conseguiu obter naquela tarefa. Em determinado momento, aquele ciclo te deixa cansado, e você, sabendo que o patrão só vai criticá-lo e nunca vai enxergar seus pontos positivos, desiste de fazer a tarefa bem-feita e volta a fazer de forma desleixada – afinal, é isso que ele espera mesmo de você (e também porque você já está tão irritado que passou a “pirraçar” o seu patrão).

Suponhamos agora essa mesma situação, diante de um patrão com outra atitude. Ao receber o seu primeiro trabalho realizado de forma desleixada, ele chama a sua atenção para os pontos negativos mas ressalta os positivos, dizendo que sabe que você é capaz de muito mais do que aquilo. Assim, pede-lhe para fazer novamente o trabalho, se oferecendo para sanar qualquer dúvida. Você realiza novamente, um pouco contrariado, mas tentando não cometer os mesmos erros para não desapontar o patrão. Ao apresentar novamente a tarefa, seu patrão elogia-o, dizendo como você melhorou da última vez para agora, e que, apesar de ainda ter alguns erros no trabalho, gostou de saber que você se esforçou e que mostrou que pode ser capaz. Ele, depois de ressaltar seus aspectos positivos, lhe aponta onde ainda existem erros e como você pode corrigi-los, usando suas habilidades. Você gostou de receber aqueles elogios e conquistar a confiança do patrão, então agora procura seguir suas coordenadas e realizar a tarefa conforme foi pedido. Ao apresentar novamente, o patrão elogia-o pelo cumprimento e pela constante evolução, parabeniza-o pelo esforço e pela tarefa bem cumprida, e ao enxergar um pequeno engano irrelevante cometido, ignora-o para não desmotivá-lo. Porém, ao pedir-lhe a próxima tarefa, o patrão fica atento se esse engano está sendo cometido novamente, enquanto você está desenvolvendo o trabalho; e ao perceber que você vai se equivocar desta vez, orienta-o sobre qual o caminho melhor a seguir naquele momento. Você sente que está agradando ao patrão, que ele está prestando atenção em você e te dá valor; dessa vez, faz seu trabalho com bastante atenção e cuidado, da forma que ele lhe orientou. Ao apresentar ao patrão, este novamente o elogia e ainda lhe dá aquele dia de folga que você estava querendo, pois você conseguiu adiantar seus trabalhos e se superou. A partir desse dia, você ficou muito mais motivado a trabalhar e cumprir as tarefas, mostrando todas as suas habilidades.

Claro que não estou “comparando” uma relação de trabalho a uma relação parental; foi apenas uma analogia grosseira para percebermos que certos comportamentos são próprios do ser humano, adulto ou criança, e não exclusivamente do universo infantil. Assim, por exemplo, um elogio (SINCERO, ESPONTÂNEO E VERDADEIRO!) pode ser força motivadora de qualquer pessoa. E às vezes, se pararmos pra refletir que aquilo poderia ser a minha realidade, talvez possamos compreender melhor como a criança se sente em uma situação semelhante.

Invistamos, pois, em observar mais os aspectos positivos de um comportamento e ressaltá-los. E, mesmo que os aspectos negativos ou inadequados estejam muitos fortes e resistentes, tomemos o cuidado de não deixarmos que isso impeça-nos de enxergar a totalidade da realidade daquela criança. (Que fique bem claro: isso não é viver como “Poliana” nem “ver o mundo cor-de-rosa”, não. Simplesmente é importante que a correção venha acompanhada de reflexão e de motivação).

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(Créditos das fotos: retirada do Google Imagens)