Posts por 'Rafael Basso'

Cadê as palavras?

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escrito por Flavia Felipe Silvino, fonoaudióloga*

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No texto anterior discutimos a função da interação face a face na comunicação da criança.

Aprofundo um pouco mais o que foi discutido através da reflexão sobre a importância de observar a forma de comunicar da criança.

Quando escuto “o meu filho não fala”, sempre penso o que significa esse “não falar”. Nem sempre “não falar” significa não comunicar. Será que essa criança que “não fala” está em um ambiente que a estimula falar. Como o seu filho comunica, você saberia responder?

Para ajudar na construção desta resposta sugiro algumas perguntas.

  1. O seu filho presta atenção quando você fala com ele?
  2. O seu filho ouve bem?
  3. O seu filho tem contato com outras crianças?
  4. Brincar com o seu filho faz parte da sua rotina?
  5. E passeios na pracinha, no parque, na casa de parentes acontecem?
  6. O seu filho comunica como? Usa gestos? Usa sons? Utiliza algumas palavras?
  7. Como o seu filho consegue o que ele deseja?
  8. Seu filho precisa falar para ter o que deseja ou você antecipa e oferece o que ele quer sem que ocorra uma comunicação?
  9. Você observa o seu filho para ver as coisas que o interessam?
  10. Você demonstra para o seu filho a atenção necessária quando ele fala?

 A criança precisa estar inserida em um ambiente que apresente estímulos para que a comunicação aconteça. A fala é consequência das interações realizadas durante a rotina da criança. Ao responder ou refletir sobres estas perguntas os pais podem repensar o seu  modo de agir e estar mais atento aos estímulos oferecidos para o seu filho. Se a frase “o meu filho não fala” permanece é importante procurar um profissional que possa avaliar a criança.

Para terminar, uma sugestão, que tal brincar de fazer perguntas para o seu filho. Aproveite cada momento e boa diversão!

Cadê

José Paulo Paes

Nossa! que escuro!

Cadê a luz?

Dedo apagou.

Cadê o dedo?

Entrou no nariz.

Cadê o nariz?

Dando um espirro.

Cadê o o espirro?

Ficou no lenço.

Cadê o lenço?

Dentro do bolso.

Cadê o bolso?

Foi com a calça.

Cadê a calça?

No guarda-roupa.

Cadê o guarda-roupa?

Fechado a chave.

Cadê a chave?

Homem levou.

Cadê o homem?

Está dormindo

de luz apagada.

Nossa! que escuro!

(Imagem  do início do texto retirada do google imagens)

Flávia SilvinoTEXTO ESCRITO PELA COLABORADORA:

Flávia Felipe Silvino, Fonoaudicloga, Mestre em Linguagem e Cognição (UFMG) e Especialista em Alfabetização. Atua principalmente com intervenção fonoaudiológica em disfagia, linguagem, fala, comunicação alternativa/suplementar em crianças e adultos, e com avaliação e intervenção em dificuldades no processo do aprendizado da leitura e escrita.

contato: flaviafesil@yahoo.com.br

 

 

A criança não é de plástico

google imagens

Lembro-me recentemente de uma polêmica sobre a alimentação em torno de uma frase que dizia, somos aquilo que comemos. Discutiram a exaustão essa frase. Se ela tinha sentido, se não tinha, qual é o tipo da nossa comida, e por aí seguiu. Volta ou outra, o tema retorna.

Como alguém próximo da filosofia, eu diria algo a mais do que esta frase, somos aquilo que comemos, que escutamos, que falamos, que pensamos, somos os lugares que andamos…

Quero dizer que não somos uma ilha deserta posta no mundo. Uma mônada fechada e lacrada em si mesma. Somos feitos de uma tecido carnal que é, em si mesmo, poroso, permeável. Ou seja, algo do que comemos, do que vemos, ouvimos, e dos espaços, interferem em nosso modo de ser. Não somos uma essência dura e já pronta para enfrentar a vida. Ao contrário, somos um tecido poroso. Desse modo, podemos ser habitados por uma série de coisas.

Quando passamos um tempo observando o mar, as ondas, temos a sensação de que o mar nos invade, ou melhor, ao olhar para ele convidamos que ele nos habite por alguns instantes. Muitas pessoas se sentem tranquilizadas com essa paisagem. Assim também acontece ao olharmos demoradamente paras as montanhas aqui de Minas. Elas passam a fazer parte do nosso interior. Aliás, dizem que os mineiros são mais desconfiados que os outros brasileiros, pelo fato de viverem entre montanhas e nunca saberem bem o que pode vir do outro lado. Morar entre montanhas é diferente de morar no litoral e certamente isso tem um impacto na cultura local, na vida das pessoas.

É neste sentido que digo que somos “habitados” pelas coisas que comemos, olhamos, escutamos. Faz sentido a frase de que somos transformados de algum modo naquilo que comemos. Da mesma forma que também faz muito sentido em dizer que somos transformados naquilo que ouvimos.

Imaginem você uma criança crescer ouvindo que ela é burra, feia, chata, ou cara do papai. Algo disso tudo ela vai tomar para si ao internalizar essa escuta e essa paisagem. É justamente por isso, que precisamos ser zelosos com as situações que vamos expor nossas crianças.

Uma pergunta que me ajuda muito a pensar se eu devo ou não apresentar algo para uma criança é imaginar em que ela poderia se transformar ou ouvir, ver, comer tal coisa a ser apresentada. É obvio que, não vamos ser neuróticos (muito acentuados, seremos só um pouquinho mesmo!) com relação ao que nossas crianças veem, comem e escutam.

Mas também não podemos ser ingênuos em negar que as situações pelas quais estamos colocando aquela criança não a influenciará em nada. Precisa de zelo, muito zelo, neste processo. A criança tende a absorver muito mais coisas que nós. É como se o filtro delas fosse fino e permitisse passar mais ruídos que os nossos.

Essa situação transformaria meu filho/a em que?

Essa pergunta é uma ótima dica para discernirmos o que será melhor em sua alimentação, formação cultural, enfim, em sua educação em sentido geral.Enfim, seu filho não é um brinquedo de plástico e inatingível. Ele, como nós, é de carne porosa…

Como em educação não temos receita, perguntar é um ótimo caminho para se achar o melhor.

O que vem antes da primeira palavra?

imagem: google imagem, blog agora sou mãe

escrito por Flávia Silvino, Fonoaudióloga*

Um dos momentos mais esperados, do desenvolvimento infantil é o surgimento da fala. A família aguarda ansiosamente a primeira palavra … “papai”, “mamãe”, “bola”. Cada nova palavra é comemorada e outras são esperadas. No entanto, outros comportamentos devem ser observados, antes que a primeira palavra surja.

A interação face a face é um desses comportamentos, é através dela que se inicia toda ação comunicativa entre a criança e a sua família.  A disposição do bebê e seus pais em estabelecer interações, como sorrir um para o outro, conversar, cantar é primordial para o desenvolvimento da fala.

Nesses momentos de interação face a face, a criança é estimulada a prestar atenção na expressão facial, no som da palavra, no movimento da boca, todos esses sinais produzidos pelos pais são estímulos necessários para que a criança tenha um modelo para ser seguido.

Um exemplo simples da interação face a face é quando a criança brincando olha para a bola e olha para a mãe. A mãe percebe o seu interesse e diz “bola, olha a bola, vamos pegar a bola”. A criança faz a relação entre o objeto e a palavra, e em algum momento ela pode falar “bola”. Esta cena familiar só foi construída porque houve um contato visual, onde mãe e criança compartilharam o mesmo interesse.

Este exemplo de interação está presente, o tempo todo, no dia a dia das famílias, por isso é importante que os pais estejam atentos no modo de falar com os seus filhos. Manter o contato físico, falar de modo que a criança possa fazer contato visual, falar corretamente as palavras, ficar atento às oportunidades de interação favorecem o desenvolvimento da fala.

Durante o primeiro ano de vida da criança, a interação face a face deve ser acompanhada por atenção ao som, interesse por pessoas e objetos, observação do ambiente, emissão de sons, uso de gestos com intenção de comunicação, choro diferenciado. Algumas patologias podem ser identificadas, quando essa interação face a face não é respondida pela criança, tais como perda auditiva, autismo, algumas síndromes.

Comportamentos que devem ser observados no primeiro ano de vida e que são anteriores ao aparecimento da fala:

-1-3 meses: choro diferenciado: a criança diferencia o choro para dor, fome, trocar a fralda. Geralmente, os pais com o tempo conseguem perceber facilmente essas mudanças no choro. O sorriso também aparece nesse período.

-4-6 meses: sons vocais estão mais presentes, ri alto, reage aos estímulos sonoros localizando a fonte.

-7-12 meses: emite consoantes “ba”, “pa”, responde ao seu nome, surge a primeira palavra.

Ao observar alguma dificuldade neste período é importante que os pais procurem um profissional adequado para ajudar.  Aproveite cada momento, para propiciar ao seu filho momentos de interação que favoreçam a estimulação da fala.

 

(Imagem  do início do texto retirada do google imagens, ref: blog agora sou mãe)

Flávia Silvino

TEXTO ESCRITO PELA COLABORADORA:

Flávia Felipe Silvino, Fonoaudióloga, Mestre em Linguagem e Cognição (UFMG) e Especialista em Alfabetização. Atua principalmente com intervenção fonoaudiológica em disfagia, linguagem, fala, comunicação alternativa/suplementar em crianças e adultos, e com avaliação e intervenção em dificuldades no processo do aprendizado da leitura e escrita.

contato: flaviafesil@yahoo.com.br

 

 

 

Para educar é preciso ser aprendiz!

Ainda continuando nosso papo sobre o nascimento (veja os textos anteriores AQUI e AQUI), queria trazer para vocês um trecho lindo de um livro bem complexo, para quem não é da filosofia, mas descreve lindamente o significado que uma criança traz ao mundo ao nascer. Maurice Merleau-Ponty, nosso amigo e filósofo francês, na sua obra maior, Fenomenologia da Percepção, escreve assim:

“Na casa onde nasce uma criança, todos os objetos mudam de sentido, eles se põem a esperar dela um tratamento ainda indeterminado, alguém diferente e alguém a mais está ali, uma nova história, breve ou longa, acaba de ser fundada, um novo registro está aberto.” (Fenomenologia da Percepção p. 545-546)

Este recorte reafirma o quão significativo é para a história da humanidade o nascimento de uma criança. O mundo pode ser interpretado de uma maneira nova quando um recém-nascido chega ao mundo.

Estou insistindo nessa tecla da “novidade sobre o mundo” que o nascimento traz para pensarmos bem o sentido da educação. Afinal, se o recém-nascido inaugura um mundo novo em um mundo velho, o que significa educar?

Aqui estará o risco, de um lado, seguirmos as receitas prontas e dadas obrigando a criança a se enquadrar em uma forma já determinada, por outro lado, a possibilidade de viver o risco e a insegurança que o novo carrega. A educação vai se firmar nessa tensão constante em assegurar que um novo jeito de se viver chegue ao mundo e, ao mesmo tempo, inserir esta nova vida na tradição na qual ela surge.

Por isso, é difícil estabelecer um modelo único de educação. O que podemos dizer são princípios que podem nos ajudar a viver essa tensão. Tais princípios como o cuidado, o diálogo, o respeito profundo a individualidade, a responsabilidade, a temperança, o carinho, nos ajudam a compreender por onde passa a educação. Aqui, estamos pensando a educação como o processo pelo qual favorecemos o desenvolvimento integral da vida humana que acaba de surgir no mundo, nada mais que isso.

Acompanhar a educação de alguém não exige muitos conhecimentos práticos ou teóricos, mas sabedoria. Isso mesmo, as pessoas sábias são as melhores educadoras. Algo raro hoje em dia. Em educação há muitos especialistas, técnicos, consultores, mas gente sábia anda em falta.

Quando digo sabedoria quero dizer aquela capacidade adquirida ou inata que as pessoas acumulam ao longo do tempo a medida que souberam saborear a vida, ou seja, tiveram um longo aprendizado através da escuta atenta da própria vida. Sabe aquelas pessoas simples que pouco estudo tiveram mas pronunciam palavras sábias? É esse o tipo de sabedoria que nos falta.

Essa sabedoria é uma posição de mundo que assumimos, geralmente baseada no aprendizado constante, na humildade de assumir que em matéria de vida humana somos sempre aprendizes. Um bom educador é aquele que evoca a postura sábia do jargão de Sócrates, “sei que nada sei”. O segredo para ser um bom educador é ser sempre aprendiz.

Fernando Pessoa também nos ajuda a compreender melhor essa sabedoria ao nos instigar com sua célebre poesia que diz, “sinto-me nascido a cada momento/ para a eterna novidade do mundo”. Ele evoca o paradoxo de nascer a cada momento para o eterno. Funde o efêmero e o eterno na experiência do viver. Essa mistura de opostos é características dos sábios educadores. Educam a partir da abertura que possuem para o outro e para o mundo.

O nascimento é a celebração do novo no eterno. O novo que vêm para re-significar as coisas mais banais do cotidiano e, ao mesmo tempo, dar continuidade a raça humana que se alastra desde alguns bilhões de anos no Planeta Terra. Este novo, para ser bem educado, exige de nós presença amiga, capacidade de escuta, discernimento e muuuuito, muuuuito carinho.

Estes gestos permanecem eternos em nossas vidas…. quais gestos deixaremos eternizados em nossos filhos? Para nos ajudar nisso, mais poesia! Salve Drummond!

Eterno

Carlos Drummond de Andrade

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e
[nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como
[uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

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(As fotos deste post foram retiradas de banco de imagem do Google).

O nascimento começa com um corte…

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Debaixo d’água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar

Arnaldo Antunes

Quero continuar a dizer sobre a beleza do nascimento (o texto anterior está aqui) e como ele inaugura uma novidade no mundo.

Podemos dizer que a marca do nascimento é o corte no cordão umbilical. A experiência de nascer para o mundo começa na separação, um corpo que se separa de outro corpo. Depois da ruptura, vamos nos relacionar com o corpo que nos gerou, mas não de dentro dele e sim por fora. Esse simples deslocamento de posição -dentro para fora – muda tudo em nossa vida. Aquilo que era um, agora se apresenta como dois. no entanto essa separação efetiva que acontece no nascimento não acontece automaticamente no decorrer da vida. Mãe e filho podem continuar fundidos afetivamente.

Nascer é separar-se da mãe para adentrar no mundo. É neste sentido que podemos falar que quem nasce traz uma novidade ao mundo. Os olhinhos da mãe voltados para o bebê e dele para com a mãe, concretizam esse acordo silencioso do nascimento, vejo o rosto de quem amo.

Só vemos o rosto de quem “está fora” de mim, o meu próprio rosto não consigo ver. A separação é fundamental para pensarmos em educação. (Mais adiante veremos o porquê!)

Quando um bebê começa a ser gestado já existe um mundo de coisas, ideias, situações bem concretas para ele viver. Se muitas coisas já estão dadas e definidas, como então o nascimento é a eterna novidade do mundo?

A resposta para isso, talvez, nos exigisse um tratado, mas como não quero divagar nas concepções teóricas da filosofia vou tentar ser bem simples. Para deixar que o novo venha ao mundo é preciso permitir, a ‘pessoa nova’ que chega ao mundo, experimentar o mundo do seu lugar. Isso mesmo, precisamos deixar a criança ser criança, o bebê ser bebê,. É simples, basta favorecer que este ser que nasceu desenvolva ao seu modo. Desta forma, nós passamos a aprender com ele o seu modo de ser.

Não, eu não quero dizer que devo deixar a criança a fazer o que ela quer. O que quero dizer é que, existe no colo de um adulto um ser que não é o mesmo de quem o carrega, por exemplo, o mesmo ser da mãe, não é mesmo ser do pai, não é o mesmo ser da vó, ou de quem quer que seja. Tampouco é um ser híbrido feito das metades do pai e da mãe cujo resultado da soma é o que carregamos. Não, um recém-nascido é como nós, completo e desamparado!

Quero dizer com isso que, dar a luz a alguém é possibilitar a vida desse alguém no mundo. Quero dizer, o bebê é uma outra pessoa que esta diante de você. Este é um princípio básico para a boa vida dos envolvidos na educação.

Pode parecer algo óbvio mas reconhecer que este outro é diferente de mim nem sempre é fácil. Tal reconhecimento é um processo, que para muitos, leva uma vida toda. Essa pseudo ‘fusão’ que se vive nas fases iniciais do nascimento é normal e pode até fazer bem por algum tempo, mas a longo prazo é prejudicial para as partes envolvidas.

Cortar o cordão umbilical é necessário, não somente no parto, mas metaforicamente dizendo da vida. Reconhecer a integralidade do outro que se apresenta diante de meu colo é importante para um crescimento saudável e maduro do desenvolvimento humano.

Caso contrário, corremos o sério risco de aniquilarmos a experiência deste ser que chega em detrimento    do medo da separação.

Contudo, para conseguirmos reconhecer essa pessoa que se apresenta diante de nós como outra pessoa (e não uma propriedade minha) é fundamental termos feito essa experiência de ruptura com estruturas que não nos permitem ser nós mesmos.

Sei que há inúmeras pessoas que, mesmo adultas e tendo filhos, não conseguiram viver esta ruptura com o universão de proteção paterno e materno. Certamente, a sua ruptura para com o mundo é de suma importância para que possibilite ao seu filho viver para o mundo.

Bem.. ainda vamos conversar mais sobre isso! Caso eu não tenha me expressado bem, sei que você pode entender tudo que falei se escutar essa música aqui.

Não é por acaso que a vida deu jeito de fazer com que todos os animais soubessem o melhor modo de romper o cordão umbilical… Imaginem se vivêssemos unidos a ele sempre. Impossível viver! Afinal, é preciso respirar!!

 

(Créditos da foto deste post: restirada de banco de imagens do Google)

O nascimento é a eterna novidade no mundo!

arquivo google imagens

Hoje gostaria de falar um pouco sobre o nascimento de uma vida.

Fico me perguntando, qual o significado de nascer? E, imediatamente, lembro-me do trecho de um livro do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty quando ele escreve sobre a liberdade em um dos seus principais livros intitulado Fenomenologia da Percepção. Lá no final do último capítulo, ele afirma,

“nascer é, ao mesmo tempo, nascer do mundo e para o mundo”.

Acho esta frase lindamente poética!  Mais que isso, ela nos dá algumas pistas para pensarmos o que significa o nascimento de um criança. Para entendermos melhor o que o filósofo francês quer dizer, vamos separar a frase em duas partes, primeiro o que significa nascer “do mundo” e depois discutir o significado de nascer “para o mundo”.

Nascer “do mundo” significa que quando nascemos já existe uma série de fatores que determinam nossa vida. Temos uma sociedade definida, uma cultura determinada por princípios que nos afetam, nascemos em um família com valores estabelecidos, temos uma língua já falada e cheia de significados, entre tantas outras coisas que já são anterior ao nascimento. Nascer “do mundo” é surgir em lugar onde já se tem muitas coisas definidas e quase não sobra espaço para nós sermos tão diferentes dessas estruturas que nos antecedem.

Toda criança quando surge no mundo vai encontrar uma estrutura já dada, é isso que o filósofo quer dizer. Ela vai nascer em um determinado País, em uma língua, em uma sociedade, em algum lugar bem situacional que pode ser um lar, como uma casa, ou um abrigo de crianças abandonadas. Tanto o lar quanto o abrigo são fatos do mundo que já estão dados, prontos. Há sempre um sistema que antecede o nascimento. Tal sistema será decisivo no crescimento dessa vida que acaba de surgir.

Neste sentido, para as pessoas que escolhem ter um filho, é importante procurar conhecer mais profundamente o “universo” que esse filho nascerá. Conhecer o “universo” significa compreender bem nossas relações com a cultura, com a política, com a religião e com as pessoas que nos circundam. Não se trata de se tornar um cientista político, econômico ou um mega chato que só quer gente bacana ao lado da sua família. Trata-se, portanto, de buscar entender o contexto que esta criança nascerá afim de detectar os valores e contra-valores que possuímos. É preciso tomar consciência da vida que o casal possui, dos valores que nela estão contidos e, se for o caso, repensar essa estrutura. Afinal, muitas dessas crenças que temos na política, na economia, na religião e nas amizades, terão um impacto direto na educação do recém chegado ao mundo.

Conheço pessoas que mudaram de cidade, de casa, de rotina para que a criança nascesse em um mundo no qual o casal acredita. Abriram mão de uma série de “benefícios” de uma vida na capital para a criança crescer em uma cidade do interior, com mais qualidade de vida. É óbvio que nem todo mundo tem essa possibilidade de mudar radicalmente a vida em função do nascimento de um filho, mas todo nós podemos nos perguntar sobre em/por quais valores queremos viver. Essa pergunta é fundamental ser colocada antes de se planejar ter um filho.

A segunda parte da frase refere-se ao nascer “para o mundo”. Merleau-Ponty sabe bem que, se de um lado nascemos em um mundo definido, por outro lado, somos uma novidade neste mundo e nele podemos apresentar algo novo. Nascer “para” significa que nossa vida está intimamente ligada com o mundo e com os outros. Nunca somos tão únicos, exclusivos. Temos uma experiência de vida que se dirige para o outro. Este outro pode ser qualquer coisa ou qualquer pessoa. Ter uma vida “para” alguém é comprometer-se com algo neste mundo.

Todo nascimento traz em si uma espécie de “furo” nessa estrutura do mundo que nos determina. Cada bebê que nasce é um novo olhar que surge no mundo. Isso significa que a vida de cada pessoa é extremamente importante e comprometida com a renovação própria do mundo.

Se por um lado temos pouco espaço para fugirmos das estruturas sociais que nos antecedem, no lado oposto temos na vida de cada um a eterna novidade dessa estrutura. Afinal, cada ser humano pode dar significado distinto a essa estrutura. Portanto, “nascer ‘do’ e ‘para’ o mundo nos coloca em uma contínua tensão. Como se houvesse um conflito entre o novo que se mostra e o velho já determinado. Esta tensão é saudável para o bom desenvolvimento da vida. Entretanto, faz-se importante ter um profundo respeito para aquela pessoa que chega ao mundo velho. Este respeito é alcançado quando descobrimos a aquele nasce não é propriedade exclusiva de ninguém se não de si mesmo.

Lembro-me bem quando, mais velho e longe de casa, minha mãe dizia, “criamos os filhos para o mundo”. Há uma sabedoria profunda nesta frase da vida. Educar não é para si, mas para que o mundo seja sempre um lugar melhor. Trago este tema de início, justamente porque acredito que é necessário para uma boa educação essa “espécie” de missão que temos, no sentido de que educar é educar para os outros. Nenhuma educação será eficiente se for egoísta e toma o filho como propriedade. É necessário sair dessa pseudofusão inicial que os primeiros contatos com o bebê favorecem. Essa saída não tem tempo, tampouco prazo definido. Porém, é preciso saber que somos “do” mundo e “para” o mundo.

Nesta perspectiva que lhes apresento, o nascimento se mostra como uma esperança muito fecunda na humanidade. Cada vida nova que habita nosso planeta traz nela toda a possibilidade de nos ensinar a ver o mundo, a nossa vida, de um lugar que não vemos. Esta é a novidade do nascimento.

Assim, nascer é apresentar o mundo (velho e costumeiro) para alguém e, ao mesmo tempo, descobrir a novidade que este alguém apresenta ao mundo. Todo nascimento exige de nós profunda abertura para a vida que se faz no mundo e para o mundo.

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Ref: MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. Martins Fontes.

A ousadia de ser gente boa

imagem retirada do google imagens

A Família – Tarsila do Amaral

Olá amig@s!

Amig@s, é chamando-@s assim que quero me relacionar com vocês. Sei bem que uma amizade não começa do nada e de modo tão rápido, mas sei também que, uma afinidade, apenas “uminha”, já seria suficiente para agregar pessoas e fazê-las amig@s.

Se nos encontramos nesta página é porque temos algo em comum, algo que nos liga, nos enlaça, nos conecta. Algo que me autoriza a dizer, amig@s!

Este vinculo realizado a partir do interesse comum pode ser forte e duradouro e, tomara, que seja. Que a vida nos seja favorável em nos fazer unidos nessa aventura de ser gente.

Qual seria o vínculo que nos une nesta página? Alguém se arrisca a dizer?

Pois bem, podem ser vários. Temos muitos motivos para nos encontrarmos aqui. Temos interesses diversos. Contudo, quero dizer de um motivo que, ao meu ver, deve ser o primeiro interesse que nos une neste Blog.

Antes mesmo de querer falar sobre educação, sobre família, sobre sociedade, sobre escola, sobre crianças, sobre babys, sobre balas e doces. Há um motivo que precede todos esses temas e, ao mesmo tempo, está presente em todos esses temas.

Antes de qualquer coisa, estamos enlaçados na experiência da vida humana. Temos uma experiência comum, somos seres humanos. Esta é a nossa alegria e, também, o nosso desafio que perdurará enquanto vivermos.

Nossa alegria, porque somos feitos de inúmeras possibilidades, vários sentimentos e desejos nos invade, somos criativos, temos uma linguagem bem desenvolvida e uma capacidade de intervenção enorme em nosso planeta.

Nosso desafio se dá justamente por sermos complexos, às vezes, nos perdemos, criamos confusões, não sabemos bem como nos orientar, ou seja, não estamos prontos e acabados. Por sermos ‘humanos’ temos a possibilidade de nos fazer de várias maneiras. Nossa vida demanda de nós o processo educativo justamente por isso, não estamos prontos. E, talvez, jamais estaremos terminados. A educação é um trabalho para enquanto vivermos.

O motivo primeiro que me leva até vocês é acreditar piamente que todos nós desejamos ser gente. E não qualquer tipo de gente. Acredito que queremos ser gente boa. Não é mesmo? O fato é que, ser gente nem sempre é fácil. Pode ser simples mas fácil não é.

É neste sentido que darei minha contribuição neste espaço. Quero provocar debates, abordar temas, sugerir assuntos que nos ajudem a sermos melhores em nossa formação primeira de ser humano.

É porque queremos ser uma pessoa melhor que estamos aqui, buscando entender, aprender, compartilhar tudo aquilo que pode nos ajudar na construção de nós mesmos.

Afinal, não existe nenhum papai, nenhuma mamãe, nenhuma família que seja boa se renunciar à sua capacidade de ser cada dia melhor. E quem é gente boa certamente é um pai, uma mãe, uma família admirável. Um ser humano bom ecoa em todos os lugares a sua bondade.

É um pouco sobre este vínculo inicial, nossa humanidade, que vamos conversar no Blog.

Mas de qual lugar eu falo com vocês?

Primeiramente, como um amigo que conversa com outros amig@s. Nesta conversa trazemos tudo aquilo que somos, vivemos, aprendemos, acreditamos, sentimos. Muito desse universo de ‘coisas malucas’ que me forma vocês terão oportunidade de conhecer ao longo dos meus posts.

É neste laço existencial e que nos une aqui que sinto-me autorizado a nos considerarmos amig@s. E é neste afeto – sim, a amizade é um afeto – que quero conversar com vocês. Neste afeto, nos colocamos em uma horizontalidade, princípio básico para toda e qualquer educação, ou seja, não se trata de um educador, professor, cientista dizendo para alguns destinatários o que deve ser feito ou não sobre a vida de quem quer que seja mas, de alguém (no caso eu) que quer viver melhor. Assim, acredito ter algo a  partilhar, ou compartilhar, com outras pessoas.

Vamos juntos, aventuramos na ousadia e teimosia em buscar uma existência autêntica que nos assegure sermos gente boa.

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o uso do @ nas palavras é para tentar escrever de modo mais inclusivo possível e significa tanto o ‘o’ do masculino quanto o ‘a’ do feminino. Assim, sinto que escrevo para tod@s! :)